Login

Director da revista
Sílvia Vaz Serra

Editores
Cristina Catana
Graça Mesquita
Ricardo Pestana
Rosário Alonso

Súmario

  • Mensagem do Presidente da APED - Duarte Correia - 3
  • Editorial - Sílvia Vaz Serra - 4
  • Impacto da Dor Neuropática em Contexto de Internamento - Marta Oliveira e Filipe Antunes - 6
  • Neuroestimulação Medular – uma Opção Terapêutica no Tratamento da Dor Isquémica Periférica - Daniela Xará, Carlos Moreno, Margarida Barbosa, Paula Barbosa e Armanda Gomes - 13
  • Sistema Infusor Intratecal Implantável de Morfina no Tratamento de Dor Oncológica Intratatavel: Qual é o Limite? - Ana Sofia Cruz, Cristiana Pinho, Carlos Moreno, Daniela Xará, Paula Barbosa e Armanda Gomes - 18
  • Dor no Doente Queimado - Ana Lúcia Nobre, Alexandra Amaral e Luiz Tornesi - 23
  • Dor na Osteoartrose: Modelos Animais e Testes Farmacológicos - Marcelo Mendonça, Joana Ferreira-Gomes, Sara Adães e José Castro-Lopes - 27
  • Informatização de uma Consulta de Dor Crónica. Um Sistema de Utilização Livre em Português - Paulo Roberto, Ana Lopes, Isabel Vilhena, Teresa Lapa, Lúcia Quadros e Sílvia Vaz Serra - 34

Editorial - Sílvia Vaz Serra

Olá a todos

Este será, talvez, um volume um pouco diferente dos anteriores.

Um pouco mais focalizado na experiência dos intervenientes, dos ≪fazedores≫.

Um pouco mais intimista na medida em que o relato vem na primeira pessoa, na explanação de como atuaram, de como fizeram.

Neste passar de testemunhos, que são os artigos, ficam expressas ideias, tecnicas, conceitos..., mas também são lançadas interrogações, dúvidas, sugestões.

O tal processo dinâmico que se pretende fulgurante, desafiador – questionável.

Como costumo dizer: so duvidando, interpelando, discutindo e que a ciência, os conceitos evoluem, rolam, se divulgam, se tomam por ≪certos≫ para, eventualmente/certamente, tempos passados se voltarem a colocar em causa e, qui ça, renascerem, ou talvez não.

Toda esta prosa faz-me recordar um slide que o Dr. Narinder Rawal utilizava no começo de todas as suas apresentações, nos idos anos 90, quando falava de dor aguda pós-operatória: make pain visible.

So se fala do que e mostrado, comunicado. Tudo o resto vem por acréscimo.

O artigo que abre este volume tem por objetivo determinar a prevalência da dor neuropática num serviço de medicina física e reabilitação.

E utilizado um instrumento de avaliação cuja utilidade os autores demonstram, o DN4, mas colocam questoes pertinentes: um doente podera ter dor neuropática e nao a encarar como tal por não a reconhecer como dor?
Todos os doentes conseguem entender os discriminativos de dor neuropática? Doentes com perturbações da linguagem ou alterações cognitivas conseguem participar no questionário?
Será lícito abordar e tratar estes doentes como tendo este tipo de dor?

Como salientam, a incapacidade para comunicar verbalmente não pode negar a possibilidade de que um indivíduo esteja a experienciar dor e, como tal, a necessitar de tratamento analgésico apropriado, concluindo pela necessidade de uma nova versão de DN4 que contemple este tipo especial de população.

Num pertinente artigo, os autores apresentam um caso clínico de uma doente com isquémia grave dos membros inferiores e dor refractaria a todas as possibilidades de tratamento médico e cirúrgico.

A opção terapêutica foi a implantação de um estimulador elétrico medular do qual resultou a reversão completa da dor e da isquémia.

Não e esquecida a análise de custo-beneficio nem as possíveis complicações desta opção de tratamento.

Concluem os autores, afirmando que apesar de nao haver estudos que o comprovem, a evolução favorável desta doente permite equacionar a hipótese de que a estimulação elétrica medular, por um periodo de tempo, tenha efeitos terapêuticos prolongados.

Um testemunho, uma escolha pensada e positiva.

O artigo que se segue lanca-nos uma questão: qual o limite?

Quantas vezes nao colocamos essa mesma interrogação, em tao diversas situações:

  • Qual o limite da dose, do tempo, do esforco, da opção..., atá onde se pode ir, com segurança?
  • Que atitude tomar perante doentes com dor oncológica refratária, especialmente aqueles com componente significativo de dor neuropática, quando a analgesia oral ou sistémica tem efeito insuficiente ou efeitos laterais inaceitáveis?
  • A utilização de sistemas infusores intratecais implantáveis (SIII) pode ser considerada quando a expectativa de vida do doente não ultrapassa os três meses?
  • Qual o custo-beneficio?
  • Qual o melhor fármaco?
  • Qual a dose limite?
  • Ha risco potencial para o desenvolvimento de hiperalgesia?

A leitura detalhada deste excelente caso clínico irá, com certeza, resolver algumas questões e colocar muitas outras.

Neste artigo aborda-se a osteoartrose, a mais comum das doencas musculo-esquéleticas.

Os mecanismos neurobiologicos que desencadeiam a dor na osteoartrose nao estão totalmente esclarecidos e, apesar de os estudos em humanos assumirem uma particular importância, os modelos animais são cruciais para a obtenção de conhecimento sobre os mecanismos biológicos da dor na osteoartrose.

Neste excelente artigo são descritos alguns desses modelos, discutidas tambem as limitações da avaliação comportamental da nocicepção e mostrada a relevância clínica dos testes Knee-Bend e CatWalk nesta tarefa.

Adicionalmente, os autores explanam os motivos do frequente insucesso na translação clínica, apesar do conhecimento atual derivado dos diferentes modelos de osteoartrose.

É salientado que as respostas obtidas em modelos animais de osteoartrose poderão abrir novas portas sobre os elementos – neuropáticos, nociceptivos, inflamatórios ou outros – que contribuem para a dor na osteoartrose.

Realça-se a importância de estabelecer canais de comunicação entre a investigação básica e a investigação clínica, de modo a permitir o estabelecimento de novas estratégias terapêuticas para a dor na osteoartrose.

Neste último artigo, salienta-se a relevância do registo e processamento de dados das consultas das unidades de dor. Considera como vantagem a informatização dos dados: a melhoria da qualidade dos registos; a diminuição dos erros, riscos e custos; a manutenção da clareza dos dados; o auxílio na decisão clínica e uma valiosa ferramenta para a investigação clínica.

Trata-se de uma aplicação informática especificamente concebida para unidades de dor crónica.

O interface e acedido por nome e palavra passe. A pagina principal inclui quatro separadores: história clónica; diagrama corporal; exames e diagnósticos e consulta e follow-up. Este último separador permite aceder a informação de consultas anteriores e tem nove formulários com questionários frequentemente usados em dor crónica.

A informação é introduzida em caixas de texto e questões de escolha múltipla, os algoritmos usam-na para cálculo. Todos os dados são categorizados e guardados numa base de dados eletrónica. Após o preenchimento dos dados, pode ser impresso um relatorio em papel, ou exportado um documento PDF para o ficheiro clínico digital.

Adicionalmente, pode ser impressa automaticamente uma folha com a prescrição e recomendações para o doente. Realça-se que os programas desenvolvidos por médicos estão melhor adaptados as suas preferências como utilizadores e a capacidade de atualizá-los gratuitamente e com facilidade aumentou a adesão a tecnologia.

Ao partilharem livremente esta ferramenta, os autores esperam contribuir para a transformação global dos registos clínicos para formato digital.

Termino com pequenos excertos do livro ≪Jerusalém≫ de Goncalo M. Tavares.
≪...Uma das mais perturbantes perguntas do doutor Gomperz, a qualquer doente, era precisamente esta: em que e que está a pensar, meu caro?  Em que e que está a pensar?  A resposta verdadeira a esta questão só poderia ser conhecida pelo próprio, não havia partilha possível.  Todos podiam mentir e portanto todos podiam estar seguros. No entanto, o assustador nesta pergunta era o oposto: nenhum dos doentes poderia provar que dizia a verdade. ...Mesmo para Theodor Busbeck – habituado aos labirintos mentais em que doente e médico por vezes entravam, aquela pergunta era inaceitável, ou pelo menos ameaçadora.
Em que deve pensar um homem? Para onde deve o homem dirigir o seu pensamento? ...Estava ali, não apenas um problema terapêutico, dirigido a loucos, mas um problema moral, básico, que dizia respeito a todos os homens.
Um homem moral em que assuntos deve pensar? E em que assuntos não deve pensar?≫

Até breve.

Mensagem do Presidente da APED - Duarte Correia

Mea Culpa!...

Com atraso, consequência de alguma morosidade na preparação deste número da revista Dor, cuja responsabilidade assumo, escrevo-vos esta página do presidente!

Morosidade, consequente a algumas adversidades que afetam o nosso país e a que as sociedades científicas não são alheias, provocando algum desencanto e menor entusiasmo na persecução dos objetivos que nos comprometemos.

As restrições económicas e sociais, atualmente vivenciadas, dificultam algumas das atividades, que desejaríamos realizar, diferindo algumas destas no tempo, mas não serão certamente impeditivas de atingirmos as metas a que nos proposemos e que todos pugnamos.

Este ano promoveremos dois grandes momentos evocativos do tema DOR: o XXIII aniversário da APED e o dia nacional de luta contra a dor/semana europeia e, no que denominaríamos de eventos «satélites», sem prejuízo de efetuarmos outras atividade de menor dimensão ou repercursão na opinião pública, até porque a vivência de uma sociedade científica não pode esgotar-se nestes dois acontecimentos.

Iremos realizar, em Braga, no dia seis de junho, as cerimónias evocativas do XXIII aniversário da APED, organizando uma sessão dedicada à dor orofacial, numa abordagem multidisciplinar, em que participará o professor Dominik Ettlin da Unidade Interdisciplinar de Dor Orofacial da universidade de Zurique, considerado uma referência neste tema. Impossibilitados de organizarmos um Workshop com treino em cadáveres em Braga ou no Porto (IML – delegação do Norte), como prevíamos, manteremos os Workshop ecografia e espasticidade, a realizar no dia seis de junho em Braga e o Workshop de ecografia e dor que estamos a planear efetuar em Lisboa na sexta-feira, dia 27 de junho.

As comemorações do dia nacional de luta contra a dor /semana europeia, terão lugar em outubro no Porto, em parceria com a FMUP. Programámos, para o dia 19 de setembro, o Workshop opioides em siuações clinicas complexas (num modelo semelhante ao que foi efetuado no ano transato em Lisboa) e reprogramámos, para o mês de novembro, o Workshop desafios no tratamento da dor neuropática que ocorrerá em Lisboa.

Apesar de não existir qualquer patrocinador externo, a direção da APED decidiu, de acordo com as nossas possibilidades, reforçar o seu contributo financeiro para a formação na medicina da dor, aumentando o quantitativo a atribuir à bolsa APED de apoio à formação na área da dor que terá este ano o valor unitário de 2.000,00 € (dois mil euros), atribuíndo o mesmo número de bolsas do ano anterior, duas na vertente clínica e uma nas ciências básicas.

Promoveremos, à semelhança dos anos transatos, os prémios «Vou desenhar a minha»; de fotografia «Mova-se contra a dor», revista dor/bene farmacêutica, e o prémio jornalismo dor (com o apoio da Grunenthal) cujo impacto, na opinião pública e nos media, tem sido considerável.

Estamos a terminar o novo template do portal da APED www.aped-dor.org e www.aped-dor.com, totalmente renovado, dinamizado pela Dr.ª Ana Pedro, visualmente muito apelativo, com conteúdos informativos e científicos importantes, didáticos e de fácil acesso, que constituirá, na minha opinião, um excelente meio de atualização profissional e motivo de consulta para todos nós.

Por força das suas novas funções de diretora clínica e membro do conselho de administração do centro hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho EPE, a Dr.ª Ana Marcos suspendeu e renuncia ao seu mandato como vice-presidente da APED, evitando qualquer possível teórico ou abstrato «conflito de interesses», na sequência da publicação do Decreto-Lei n.º 14/2014, de 22 de janeiro e do Despacho n.º 2156-B/2014.

A sua dedicação, ponderação, isenção, sensatez e senso crítico constituíram, ao longo destes anos em que partilhámos a presidência da APED, uma mais valia insubstituível e a sua ausência significa um enorme «vazio» na atual direção. Desejo, muito sinceramente, as maiores felicidades, acreditando que o seu desempenho como diretora clínica constituirá, para as populações de Gaia e Espinho, um ganho em saúde deveras importante.

Ao finalizar este texto, não posso deixar de referir e de desejar as maiores venturas à Dr.ª Teresa Schawlbach, ex-diretora da unidade de dor do hospital central de Maputo,que recentemente se reformou da sua atividade hospitalar, que constitui uma referência incontornável no tratamento da dor nesse país e cujo exemplo de persistência, trabalho dedicado e continuado, capacidade científica e pedagógica, tornaram possível uma melhoria real do tratamento da dor em Moçambique, que perdurará como exemplo para os vindouros.

Até breve