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Director da revista
Sílvia Vaz Serra

Editores
Cristina Catana
Graça Mesquita
Ricardo Pestana
Rosário Alonso


Súmario

  • Editorial - Isaura Tavares - 3
  • Neurobiologia da Dor: Mecanismos de Transmissão e Modulação da Informação Nociceptiva - Isaura Tavares, Deolinda Lima e Armando Almeida - 5
  • Papel Central da Substância Cinzenta Periaquedutal no Controlo da Dor: Como Concicliar os Últimos Avanços dos Estudos Clínicos e Básicos - Marta Louçano e Isaura Tavares - 20
  • Regulação do Sistema Noradrenérgico na Dor Crónica: Papel do Locus Coeruleus na Inflamação Articular e no Desenvolvimento de Transtornos Afetivo-Emocionais - Gisela Borges, Cristina Miguelez, Luísa Ugedo, Juan António Micó, Esther Berrocoso e Fani Neto - 25
  • Estudos de Terapia Génica para Controlo da Dor Crónica:Presente e Futuro - Isabel Martins e Isaura Tavares - 36

Editorial - Isaura Tavares

É comum referir que o conhecimento da neurobiologia da dor tem progredido exponencialmente nos últimos anos. A título de exemplo, numa pesquisa realizada no Pubmed, em março de 2015, usando os termos «Pain neurobiology» encontra-se uma média anual de 36 artigos publicados na década de 1991-2000; 67 artigos na década de 2001-2010 e 145 artigos no triénio de 2011-2013. A comprovar esta tendência de crescimento no número de publicações científicas sobre a neurobiologia da dor verifica-se que, só no ano passado, o número de artigos publicados (257 artigos em 2014) ultrapassou o somatório do número de artigos publicados desde 1991 (248 artigos de 1991 a 2013). Devido a este crescimento exponencial no número de publicações científicas, na presente edição da revista Dor pareceu-nos adequado começar por rever alguns conhecimentos mais atuais acerca da neurobiologia da dor, tendo em consideração conhecimentos passados mais alicerçados.

Deste modo, o primeiro artigo deste número da revista Dor é uma revisão sobre a neurobiologia da dor, que aborda aspetos fundamentais como as vias anatómicas de transmissão da informação nociceptiva, e passa por aspetos emergentes como o papel das células gliais na cronificação da dor. Este artigo resulta de uma colaboração estabelecida entre os dois grupos portugueses que se dedicam à investigação básica em dor: o grupo da Faculdade de Medicina do Porto/I3S, liderado pela professora Deolinda Lima, e o grupo do Instituto de Ciências da Vida e da Saúde da Universidade do Minho, liderado pelo professor Armando Almeida. Neste artigo, inicialmente concebido para ser um capítulo de livro, acompanha-se o trajeto percorrido pela informação nociceptiva desde a periferia, passando pela medula espinhal e chegando ao encéfalo. Um dos aspetos abordados no referido artigo diz respeito ao papel do encéfalo na modulação da dor, área que tem conhecido bastantes avanços nos últimos anos, não só devido a estudos em modelos animais mas, sobretudo, a estudos imagiológicos realizados em voluntários saudáveis e em doentes com diversos tipos de dor crónica. Os estudos em modelos animais e os estudos clínicos mostraram que o encéfalo tem a capacidade de diminuir ou potenciar a dor, podendo a cronificação da dor ser devida à falta dos mecanismos inibitórios e/
ou à exacerbação dos mecanismos facilitatórios.
 A substância cinzenta periaqueductal (PAG) desempenha um papel essencial na modulação descendente a partir do encéfalo, dado receber informação de áreas mais altas do neuroeixo,
como o córtex pré-frontal, ínsula e a amígdala,
que são responsáveis por aspetos tão diversos
do controlo da dor como o estado cognitivo e afetivo.

Por este motivo, a PAG merece um papel
 de destaque no segundo artigo publicado neste
número da revista Dor. O artigo resulta de uma 
tese de mestrado de Bioquímica em Saúde, realizada pela primeira autora (Marta Louçano) sob orientação da segunda autora (Isaura Tavares),
na Escola Superior de Tecnologia da Saúde do
Porto. Ainda no encéfalo, a modulação noradrenérgica desempenha um papel muito importante 
no controlo descendente da dor mas, também, 
como base neurobiológica de fenómenos de in
teração entre o estado afetivo e a dor. A principal estrutura noradrenérgica no encéfalo é o locus coeruleus, que é o principal alvo de análise no 
terceiro artigo incluído nesta edição da revista
 Dor. Este artigo demonstra que o locus coeru
leus poderá mediar a associação da dor com o desenvolvimento de sintomas de ansiedade e depressão, aspeto com um claro interesse trans-lacional. Convém salientar que este terceiro ar
tigo representa vários anos de investigação em modelos animais de dor crónica, e contém resultados originais publicados em várias revistas científicas de considerável impacto na área da
 dor. O terceiro artigo resulta da adaptação dos resultados da tese de doutoramento de Gisela Borges, orientada pela professora Fani Neto (Faculdade de Medicina do Porto/I3S) e co-orientada pela professora Ester Berrecoso (Universidade de Cadiz), recentemente defendida 
na Faculdade de Medicina do Porto, no âmbito
 de um doutoramento europeu no programa internacional de doutoramento em neurociências
da Universidade do Porto (i-PDN-UP).

O último 
artigo incluído no presente número da revista 
Dor analisa aspetos virados para o futuro: a aplicação de terapia génica no controlo da dor crónica. Partindo de resultados obtidos em modelos
 animais de dor crónica e usando vetores víricos não-replicativos para tratar a dor, as autoras Isabel Martins e Isaura Tavares (Faculdade de Me-
dicina do Porto/I3S) apresentam os resultados de ensaios clínicos de terapia génica em situações de dor oncológica. Embora provisórios, estes estudos mostram que é possível perspetivar novas formas de tratar a dor no futuro. A terapia génica é apenas uma das possibilidades que se afiguram mas outras abordagens poderiam ser analisadas no contexto de procurar alternativas para o futuro do tratamento da dor crónica.

Tendo por base a importância do investimento na investigação em dor, é com preocupação que se assiste à desertificação de jovens com talento e provas dadas na investigação da dor, de modo análogo a outras áreas de investigação científica. A aproximação de investigadores básicos e clínicos poderia atenuar esta tendência. Conseguirmos, todos juntos, os meios necessários para colocar estes jovens investigadores a fazerem investigação, preferencialmente orientada pelas questões trazidas para o laboratório pelos clínicos, é um sonho impossível de concretizar? Seria simples se a afirmação «Tudo o que um sonho precisa para ser realizado é alguém que acredite que ele possa ser realizado» (Shinyashiki) fosse o título de um protocolo para concretizar aquele sonho. Um investigador básico sozinho é pouco, muito pouco, para se concretizar o sonho de apoiar os jovens investigadores na área da dor e realizar investigação que possa, efetivamente, contribuir para ajudar os doentes com dor crónica. Precisamos de usar espaços de partilha, como este da revista Dor, para colocar investigadores básicos e clínicos a debater estes temas. Mesmo (ou sobretudo?) em tempos de desânimo pela «ditadura econo- micista» que tenta reduzir, na investigação e na clínica, o valor individual e profissional a meros números. Como dizia o filósofo Sócrates «Procu- rai suportar com ânimo tudo aquilo que precisa ser feito».