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Director da revista
Sílvia Vaz Serra

Editores
Cristina Catana
Graça Mesquita
Ricardo Pestana
Rosário Alonso


Súmario

  • Mensagem do Presidente da APED - Duarte Correia - 3
  • Editorial - Sílvia Vaz Serra - 5
  • Dia Nacional de Luta Contra a Dor 2014-Simpósio: «Dor na Neuropatia Diabética: Presente e Futuro» - Isaura Tavares - 6
  • Fatores Preditores da Dor Aguda Pós-Cirúrgica Após Artroplastia Primária do Joelho ou da Anca - Patrícia R. Pinto e Armando Almeida - 8
  • Análise Económica do Tratamento de Doentes com Dor Neuropática Periférica em Portugal - Mónica Inês, Vasco Conde, Jorge Cortez, Ana Luisa Costa e Ana Carla Gordo - 19
  • Avaliação do Efeito da Associação Uridina Monofosfato, Ácido Fólico e Vitamina B12 na Sintomatologia das Neuropatias Periféricas, no Âmbito dos Cuidados de Saúde Primários em Portugal - Pedro Almeida, Luis Negrão em representação do grupo português para o estudo das NP - 27
  • Nevralgia do Trigémio, Tratamento de Radiocirurgia - Paulo S. Costa - 33

Editorial - Sílvia Vaz Serra

Esta minha reflexão surgiu durante a cerimónia de juramento de Hipócrates de novos médicos, que ocorreu recentemente (como todos os anos, aliás). Foi salutar e refrescante recordar os princípios que regem a nossa atuação como profissionais de saúde e como elementos integrantes do universo do cuidar… do outro, do próximo, de si… É bom ser confrontado com a alegria, contagiante (ou pelo menos que faz «abanar»), com a esperança, a força e a vontade de querer mudar o mundo, e o desejo de deixar um testemunho para o futuro. Não há espaço para «se»! Acabou por ser uma pedrada no charco (ou lago, ou mar- depende das águas em que se navega, ou não) com as suas ondas de choque… com a realidade, o quotidiano…de desmotivação, de falta de ânimo, aquele estado de alma…..que se mescla com sentimentos de injustiça, incompreensão, revolta e luta.

Uma luta, silenciosa e perseverante, que pode ter como armas testemunhos como os que hoje aqui trazemos.

O volume é «inaugurado» com um texto que faz a súmula do que foi proferido no simpósio que assinalou o dia nacional de luta contra a dor (organizado em colaboração entre a APED e a faculdade de medicina da universidade do Porto).

O assunto do simpósio foi escolhido tendo por base «A dor neuropática», tema do ano mundial da luta contra a dor que se iniciou precisamente na semana em que decorreu o simpósio.

Vários palestrantes, nacionais e estrangeiros, dissertaram sob o tema «Dor na neuropatia diabética: presente e futuro» incidindo na epidemiologia, fisiopatologia e terapêuticas atuais e futuras da neuropatia diabética. Muito mais do que uma chamada de atenção para as implicações do flagelo que é a diabetes.

O artigo seguinte descreve um estudo que tem como objetivos investigar e esclarecer se há diferenças efetivas entre os dois tipos de artroplastias major: a prótese total da anca e do joelho, ao nível da experiência de dor aguda pós-cirúrgica e ao nível dos preditores da intensidade dessa dor. Realça a importância de se implementarem intervenções preventivas distintas com respeito à gestão e ao controlo da dor pós-artroplastia em função do local cirúrgico ser o joelho ou a anca. Demonstra ainda a eficácia de técnicas focadas no otimismo…

Estou só a levantar a ponta do véu, estou certa de que não hesitarão em ler atentamente este trabalho! O texto seguinte inicia-se com uma verdade insofismável: «Haverá sempre dor. Não é possível eliminá-la. A questão não é como eliminá-la, mas como tornar a vida possível com ela». Esta premissa inicial prende-se com outra, outras: a obrigatoriedade de se estabelecer um plano preventivo/terapêutico e a necessidade de se racionalizar o custo, para a sociedade, dessa mesma conduta programada. E é precisamente o custo, o objetivo do estudo que em seguida se reproduz: «estimar o custo de adicionar pregabalina ou gabapentina ao tratamento de doentes com dor neuropática periférica em Portugal».

Partindo de vários pressupostos: a dor neuropática motivada pelas neuropatias periféricas é uma entidade frequente, podendo ser altamente incapacitante; a lesão das células de Schwann «inaugura» este processo patológico; a uridina
monofosfato demonstrou a sua eficácia no tratamento etiológico da lesão das bainhas de mielina em diversos modelos experimentais e clínicos; o médico de medicina geral e familiar é o clínico que primeiro prescreve um tratamento
sintomático, os autores elaboraram um estudo de caráter exploratório, aberto, prospetivo, multicêntrico, observacional, com dois meses de seguimento, onde se avaliava a melhoria clínica nos doentes com neuropatia dolorosa periférica
(qualquer que fosse a génese etiopatológica) medicados com a formulação que contém UMP mais vitamina B12 e ácido fólico. Interessantes conclusões.

A finalizar este volume, uma excelente e criteriosa análise de uma abordagem terapêutica da nevralgia do trigémio -a radiocirurgia. Considerada sem risco de mortalidade associado, com baixa probabilidade de alterações sensitivas
(mesmo após realização de um segundo episódio de tratamento) e após análise de fatores adicionais de ponderação para a sua escolha (idade e estado geral do doente; presença ou ausência de esclerose múltipla; presença ou ausência
de contacto/compressão vascular; intervenções cirúrgicas prévias), conjugados com a experiência da equipa multidisciplinar, vai adquirindo, cada vez mais, um papel de protagonismo dentro das opções de primeira linha no tratamento
desta entidade patológica.

Termino com uma frase de Mia Couto: «Os desafios são maiores que a esperança? Mas nós não podemos senão ser otimistas…O pessimismo é um luxo para os ricos.»
Até breve.

Mensagem do Presidente da APED - Duarte Correia

Redijo, por diversas e múltiplas circunstâncias, neste final de novembro, a página do presidente cujo texto permitirá a conclusão deste número da revista DOR!...

Apesar de alguma letargia e apatia, algo contagiante durante o período estival, neste último trimestre realizámos e estão previstas algumas atividades que significam, no meu entender, o quebrar e a rutura de um imobilismo e inércia que considero deveras preocupante e dececionante.

As comemorações do dia nacional de luta contra a dor tiveram lugar este ano no Porto, no dia 17 de outubro, na aula magna da faculdade de medicina (FMUP), organizadas em parceria com a cátedra de medicina da dor.

Estas decorreram da melhor forma e constituíram um êxito organizativo e científico assinalável, que ultrapassou largamente as minhas melhores expetativas, graças ao trabalho empenhado da professora doutora Isaura Tavares e do professor doutor Castro Lopes que brilhantemente coordenaram este evento.

O 1.º simposium internacional da cátedra de medicina da dor dedicado à dor na neuropatia diabética - presente e futuro, precedeu a sessão comemorativa do dia nacional de luta contra a dor.

Teve como palestrantes o Dr. Dinesh Selvarajah, endocrinologista do Sheffield Teaching Hospitals Foundation Trust; o Prof. Timothy O´Brian, endocrinologista e diretor do Irish National Regenerative Medicine Institute; o Prof. Luís Azevedo, do departamento de ciências da informação e decisão em saúde da FMUP e a Prof.ª Isaura Tavares do departamento de biologia experimental da FMUP, que constituíram um painel de excelência, e cujos contributos científicos mereceram e prenderam a atenção de uma vasta assistência.

Na sessão solene comemorativa do dia nacional de luta contra a dor, o Dr. Bart Morlion, diretor do Leuven Center for Algology & Pain Management do hospital universitário de Leuven e presidente eleito da EFIC proferiu a sua conferência magistral The challenges of pain management in Europe que foi extremamente interessante e muito didática, possibilitando a todos os presentes uma reflexão sobre este tema cadente.

Procedemos, à semelhança dos anos transatos, ao anúncio dos laureados das «Bolsa APED» de apoio à formação na área da dor e à entrega dos prémios «Vou desenhar a minha dor», revista dor/Bene farmacêutica, prémio jornalismo dor e Grünenthal dor.

Foi muitíssimo mais participado em relações aos anos transatos o concurso de desenho «A dor na criança – vou desenhar a minha dor».

Aos vencedores no escalão de menores de seis anos, o Afonso Caetano Nunes e o Tiago Maurício Frias; do escalão de seis a 9 anos, o Gonçalo Pereira Cipriano, a Beatriz Correia Clemente e a Raissa Luiana Quimaraje Camueje; do escalão de 9 a 12 anos, a Joana Cristina Amado Coelho, a Margarida Sousa Português Felicidade e a Diana Kornevych, apresentamos as nossas felicitações.

O Júri das «Bolsas APED de apoio à formação na área da dor», presidido pelo Dr. João Silva Duarte, decidiu atribuir a bolsa, na vertente de ciência básicas, à Dr.ª Ana Carla David Pereira, aluna de doutoramento no instituto de ciências da vida e da saúde da escola de ciências da vida (universidade do Minho), para realizar um estágio no instituto de biomedicina da universidade de Helsínquia, sob a supervisão do Prof. Antti Pertovaara.

Na Vertente clínica, foram laureadas a Dr.ª Belinda Manuel Neves Pinho Oliveira, anestesiologista no serviço de anestesiologia do hospital de Braga, para efetuar um estágio no St. George´s Hospital, Londres, Grã-Bretanha, sob supervisão do Dr. Andrzej Krol, consultor de anestesiologia e medicina da dor e a Dr.ª Marta Alexandra Osório de Matos, psicóloga e aluna de doutoramento no instituto universitário de Lisboa (ISCTE), que efetuará um estágio no Health Psychology Department of Experimental-Clinical and Health Psychology, da universidade de Ghent, Bélgica, sob supervisão da Prof. Dr.ª Liesbet Goubert.

Os vencedores do prémio «Revista dor/Bene farmacêutica» foram, no «Melhor artigo científico ciências básicas», o trabalho «Papel da noradrenalina na facilitação da dor crónica no encéfalo », de Isabel Martins, Deolinda Lima e Isaura Tavares da FMUP e do instituto de biologia molecular e celular (FMUP/IBMC). O Melhor artigo científico clínico foi atribuído ao tema «Dor persistente pós-cirúrgica: reflexão crítica acerca de fatores de risco e estratégias preventivas de intervenção psicológica» de Patrícia R. Pinto e Armando Almeida do instituto de ciências da vida e da saúde da escola de ciências da vida, da universidade
do Minho.

Procedemos ainda à entrega dos prémios jornalismo dor, na «Categoria de televisão», a Paula Rebelo da RTP cujo trabalho versava sobre o impacto da dor crónica na população portuguesa e consequências da falta de tratamento, e «Categoria rádio», a Anabela Silva da Antena 1, pela sua reportagem sobre a dor que sentem os profissionais de saúde.

Os prémios investigação Grünenthal dor foram atribuídos na investigação básica «Administração intratecal de toxina botulínica do tipo A melhora o funcionamento da bexiga e reduz a dor em ratos com cistite» de Ana Coelho, Raquel Oliveira, Ornella Rossetto, Francisco Cruz, Célia Duarte Cruz e António Avelino da FMUP e do FMUP/IBMC.

Na investigação clínica a «Dor crónica e utilização de serviços de saúde – poderá existir sobre utilização de exames complementares de diagnóstico e iniquidades na utilização de tratamentos não-farmacológicos» de Luís Azevedo, Altamiro da Costa Pereira, Liliane Mendonça, Cláudia Camila Dias e José Manuel Castro Lopes da FMUP foram os vencedores.

Porque a atividade da APED não se restringe nem se esgota nas efemérides comemorativas anuais, realizámos em finais de setembro, no ISLA de Vila Nova de Gaia, o workshop «Opióides em situações clínicas complexas» que terá sido, na nossa opinião, um espaço formativo deveras importante, um local de reflexão e discussão participativa e plural para o qual muito contribuíram os palestrantes convidados a quem expresso o meu reconhecimento.

Estando o capítulo formativo aquém do que tínhamos planeado para este ano, minimizaremos, organizando no dia 12 de dezembro, em Lisboa, no hospital dos Capuchos, o workshop «Ecografia na dor crónica» destinado a um número limitado de participantes, promovendo os conhecimentos básicos na ecografia de intervenção no tratamento da dor. O Dr. Tomas Domingo, do hospital universitário de Bellvitge, considerado uma referência no ensino da aplicação da ecografia na medicina da dor, será um dos formadores convidados.

Destaco a renovação total da nossa página www.aped-dor.com e www.aped-dor.org, consequente ao trabalho continuado e dedicado da Dr.ª Ana Pedro, que está graficamente muito mais atraente, inovadora e dinâmica, com atualizações permanentes e regulares, dotada de conteúdos científicos relevantes e recentes, interagindo com o «Mova-se contra a dor», nas redes sociais.

Um dos conteúdos disponibilizados, que considero merecer a vossa atenção, é o modelo virtual em 3D da coluna lombar, http://www.aped-dor.org/index.php/a-aped/destaques/417-modelo-virtual-em-3d-da-coluna-lombar, que permite, através de imagens reais em 3D, o ensino de anatomia do neuroeixo e da anestesia regional; o apoio visual no desenvolvimento de novos procedimentos em anestesia regional ou na medicina da dor, e que possibilita aos nossos pacientes uma informação com visualização complementar de algumas técnicas instrumentais ou de intervenções cirúrgicas pertinentes para estes.

As reconstruções de vértebras; discos vertebrais; arcos vertebrais; ligamento amarelo; ligamentos supraespinhosos; ligamentos interespinhosos; gordura epidural; gordura foraminal; saco dural; bainhas das raízes nervosas e raízes dos nervos sensitivos e motores, com uma visão dinâmica de 360°, que inclui vistas parciais e totais de todas estas estruturas e uma função de zoom, são seguramente muito úteis na nossa atividade clínica.

Neste final de 2014, em que estamos a planear as atividades da APED para o ano que se avizinha, solicito-vos que me enviem, sem receios ou constrangimentos, todas as vossas propostas, críticas e sugestões, que merecerão a nossa maior atenção e consideração, considerando que apenas com a participação plena dos nossos associados poderemos ter uma sociedade científica dinâmica, consentânea com as necessidades reais e objetivos dos seus membros.