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Director da revista
Silvia Vaz Serra

Editores
Armanda Gomes
Ananda Fernandes
Graça Mesquita

Súmario

  • Mensagem do Presidente da APED - Duarte Correia - 3
  • Editorial - Silvia Vaz Serra - 4
  • Considerações Éticas no Tratamento da Dor - José Luís Portela - 5
  • Cefaleias Pós-Punção da Dura-Máter - Laila Castelo-Branco, Irene Ferreira, Tiago Taleço,
Tânia Seixas, Luis Liça, Lisbete Cordeiro
e João Silva Duarte - 9
  • Dor em Cuidados Intensivos 1- Edward Maul - 5
  • Eritromelalgia Primária:
Dor Neuropática Hereditária - José N. Figueiredo, M. Fátima Oliveira e Beatriz Silva - 17
  • Eros Frente a Frente com a Dor
(Diálogos de Eros com a Dor) - Cristina Catana - 21
  • As Células Gliais da Medula Espinhal e a Dor Neuropática: Implicações no Uso de Opióides - Mariana Sofia Afonso e Fani Lourença Moreira Neto - 24
  • Perceções Sobre o Ambiente Físico e Sociofuncional
de uma Unidade de Dor Portuguesa: Estudo
Qualitativo com Utentes e Profissionais de Saúde - Rita Morais e Sónia F. Bernardes – 39

Editorial - Silvia Vaz Serra

E screvo este editorial em meados de julho... e veio-me à memória alguns textos de Nuno Lobo Antunes em «Sinto muito»: «Em Portugal o médico passou a funcionário público e depois a burocrata. A essência da sua profissão perverteu-se, e o prestígio social, inevitavelmente, cairá também. Se assim for, a Medicina não mais atrairá os melhores espíritos. A relação única e íntima entre o doente e o seu médico não se compadece com horários rígidos, nem com a necessidade de ir buscar as crianças ao colégio. Desconfio que em breve a cotação em bolsa do património genético do estudante de Medicina cairá para valores apropriados a este tempo de crise. Quem estará interessado nos genes do “médico-manga-de-alpaca”?».

... «Tudo o que o médico diz sem olhar é bula de medicamento».
... «Quando olho nos olhos de um estudante de Medicina, imediatamente sei: if he has It. Também eu, embora não consiga explicar aos burocratas da Medicina, aos políticos idiotas, que elegem as médias do liceu como único critério de acesso a Medicina, o que “It” significa.»

... «Foi nessa altura que melhor compreendi as necessidades de um doente, e as necessidades dos toxicodependentes. O médico anestesista, chinês pequenino, de olhos em fenda, injetou-me na veia, sem explicações ou aviso prévio, um produto desconhecido. Passados alguns segundos, Hiroshima rebentou dentro de mim. Um cogumelo de impressões subiu pela espinha para rebentar na cabeça... Pior foi quando acordei e de médico passei a paciente... Faz bem aos médicos essa experiência... Médico da dor era o meu título, a minha responsabilidade... Tornava-se então aparente que o verdadeiro motivo da consulta era a solidão, o desejo de companhia, de um ouvido que ouvisse, de uma voz que respondesse, de um coração que entendesse... No fim, antes de desligar, o agradecimento sentido, a afirmação da melhoria substancial da dor do corpo, e da dor da alma, porque ambas se confundiam.»

Perdoem estas longas citações... o que têm a ver com o editorial de uma revista que fala sobre Dor? O conhecimento científico, o trabalho, têm de ser valorizados, enaltecidos, potenciados (sem investigação, sem dúvida e procura não há evolução, avanço...) mas não podem ficar alheados, apartados, isolados do sentir, da partilha, da emoção, da dádiva. Esta forma de estar não se restringe aos médicos mas a todos os profissionais que lidam com alguém que tem, que vive com dor. É de todos estes conceitos e estados de alma que se pretende falar, discutir, partilhar nesta vossa revista.

Neste número são abordados assuntos tão distintos como ética, a importância das perceções sobre o ambiente físico, como abordar a cefaleia pós-punção da dura, um diálogo entre Eros e a dor, um caso clínico sobre eritomelalgia e dor em cuidados intensivos. Em vez de tecer considerações sobre cada artigo per si, convido-vos a ler atentamente estes excelentes artigos (e bem mais produtivo), convicta de que alguns deles (é impossível e pouco desejável o unanimismo) vos despertarão o interesse e von- tade de aprofundar e discutir esse(s) tema(s) em particular.

No final, podemos sempre optar:

«Ganhei experiência e sabedoria, fiz novas amizades – mas no fundo de mim próprio só havia um enorme vazio. Habituei-me a ele, habituei-me a ser um simples invólucro à espera da morte. Abandonei-me ao lento desfiar dos dias. Mas a voz dos deuses é que decide o destino dos homens, mesmo quando eles não lhes dão ouvidos. (...) Arduno tinha razão: o nosso mundo acabou... até eu me vejo obrigado a escrever tudo isto na língua do invasor, a única em que sou capaz de escrever...»

João Aguiar, «A voz dos deuses»

«O ano de 1000 foi um período admirável de reconstrução e esperança. Pudesse esse espí- rito regressar agora, nesta infância do século, e encorajar os homens para reconstruírem aquilo que tem sido degradado. E que, desta feita, a obra maior fosse o próprio homem.»

Mia Couto, «Pensageiro frequente»

«Detesto lugares-comuns. São uma espécie de outlets da inteligência onde, por preços muito baratos, se compram imitações de pensamento.»

Lobo Antunes, «Sinto muito» Até breve.

Mensagem do Presidente da APED - Duarte Correia

Nesta época, plena de calor estival, onde o trabalho para muitos de vós cede lugar a um merecidíssimo período de lazer e descanso retemperador, redijo-vos neste mês de julho, um brevíssimo texto, dedicado à «Página do Presidente», a publicar em setembro na Revista Dor n.o 3 de 2012.

Não posso deixar de referir o 5.o Encontro Nacional das Unidades de Dor, que decorrerá na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Leiria nos dias 19 e 20 de outubro de 2012 integrado na Semana Europeia/Dia Nacional de Luta Contra a Dor (20 de outubro), precedido no mesmo local (a 18 e 19 de outubro) das II Jornadas da Unida- de de Dor do Centro Hospitalar Leiria-Pombal.

O objetivo principal deste 5.o Encontro é proporcionar aos profissionais que integram as Unidades de Dor, um fórum de discussão sobre temas que consideramos relevantes para a sua atividade profissional, reafirmando a natureza e o conceito da multidisciplinaridade. A Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED) convida e suporta os custos, a exemplo dos eventos anteriores, dos médicos, de dois enfermeiros e de um representante de cada um dos outros grupos profissionais (psicólogos, assistentes sociais, outros grupos) de cada uma das Unidade de Dor.

Por motivos organizativos, é da maior importância que sejam cumpridos por todos vós os prazos solicitados para o envio do boletim de inscrição (até 15 de setembro) por carta A/C de Ana Tavares para o Departamento de Biologia Experimental, da Faculdade de Medicina do Porto, 4200-319 Porto, por fax (225 513 655) ou e-mail (tavaresa@med.up.pt).

O programa das II Jornadas da Unidade de Dor do Centro Hospitalar Leiria-Pombal, que terão lugar a 18 e 19 de outubro no mesmo local, é deveras interessante e atrativo, constituindo por si só um motivo cabal para nos deslocarmos a Leiria neste período.

Integradas nas atividades comemorativas da semana europeia, decorrerão múltiplos eventos em diversos pontos do país, que a APED incentiva e estimula. Pretendemos que cada um de vós (preferencialmente de segunda a quarta-feira), organizem nos vossos hospitais, centros de saúde ou na comunidade onde se inserem uma atividade alusiva, vocacionada para o público ou para os profissionais de saúde, contribuindo de forma ine- quívoca para o sucesso desta semana europeia.

No Dia Nacional de Luta contra a Dor procederemos a exemplo dos anos anteriores à entrega dos diversos prémios (Desenhar a Minha Dor, Grünenthal Dor, «Revista Dor», Jornalismo/Dor) e ao anúncio dos laureados das Bolsas APED/ Janssen e APED/Fundação Grünenthal de apoio à formação na área da Dor.

O regulamento destas bolsas (cujos estágios serão realizados no estrangeiro), prazos, condições de candidatura e outras informações estarão disponíveis no nosso portal www.aped-dor.com a partir do inicio de agosto de 2012 e as Bolsas APED/Fundação Grünenthal poderão também ser consultadas no site www.fundacaogrunenthal.pt.

Recordo-vos ainda que neste âmbito da formação, estabelecemos um protocolo com a Socie- dad Española del Dolor (SED) de colaboração mútua, permitindo a candidatura e atribuição das denominadas «becas iberoamericanas»  (http://www.sedolor.es/doc/becas_iberoamericanas.pdf), inicialmente destinadas apenas a es- pecialistas da América Latina.

A Medicina da Dor, à semelhança das outras áreas da Ciência, tem sofrido avanços insofis- máveis e muito significativos, sendo fundamental não nos acomodarmos, rejeitarmos o statu quo, empenharmo-nos ativamente na busca e promoção do conhecimento científico, na diferenciação e capacitação técnica, mantendo uma visão holística e humanizante, recusando uma acomodação fácil, fruto de um desencanto por muitos de nós vivido, consequência das dificuldades e da conjuntura que atravessamos.

Por este motivos, estas «bolsas de formação na área da Dor», destinadas a todos aqueles que exercem atividade clínica ou de investigação, serão um contributo modesto, mas o atualmente possível, para atingirmos este desiderato.

Será ainda, na minha opinião, da maior importância uma reflexão atenta relativa aos conselhos ou recomendações do grupo de trabalho que, no âmbito da CNCDOR, visitou as Unidades de Dor deste país, cujos relatórios «individuais» há muito foram remetidos para os Conselhos de Administração dos diversos hospitais, para a sua divulgação e informação aos profissionais dessas estruturas.

É fundamental, com suporte nessas reco- mendações, promover de uma forma ativa o nosso «magistério de influência» para que as mesmas constituam um importantíssimo fator de mudança e transformação das nossas Unidades de Dor, reconhecendo de forma inequívoca o trabalho, o esforço e o desempenho dos seus profissionais, possibilitando uma adequação dos seus recursos humanos e materiais, permitindo uma melhoria real na acessibilidade, na prestação, na capacitação e diferenciação de cuidados aos nossos doentes, razão e ser do nosso mister.