Login

Director da revista
Silvia Vaz Serra

Editores
Armanda Gomes
Ananda Fernandes
Graça Mesquita

Súmario

  • Mensagem do Presidente da APED - Duarte Correia - 3
  • Editorial - Fani Neto - 5
  • TRPV1 e Dor Visceral - Ana Charrua, A. Avelino e F. Cruz - 6
  • Marcador de Lesão Neuronal ATF-3
é Expresso nos Neurónios Aferentes Primários
de Ratos Monoartríticos - Diana Sofia Marques Nascimento, Daniel Humberto Pozza, José Manuel Castro-Lopes e Fani Lourença Moreira Neto - 12
  • Neuropatia Periférica Induz Instabilidade na Codificação de Informação Espacial Pelas Place Cells
da Área CA1 do Hipocampo Dorsal - Helder Cardoso-Cruz, Deolinda Lima e Vasco Galhardo - 24
  • Os Efeitos da Neuropatia Diabética em Componentes Centrais do Sistema de Modulação da Dor - Carla Morgado e Isaura Tavares - 35

Editorial - Fani Neto

Por decisão da Dra. Sílvia Vaz Serra, diretora da revista Dor, este número 2 de 2012 é inteiramente dedicado à investigação básica. Foi nesse sentido que me foi dirigido o convite para organizar a elaboração deste número, visto que a minha atividade profissional como docente e investigadora na Faculdade de Medicina do Porto me facilitaria a angariação dos artigos. De facto, ao fazer, eu própria, investigação em neurobiologia da dor, conheço as pessoas que tal como eu trabalham nesta área a nível nacional.

Era intenção inicial que todos os artigos de investigação básica aqui publicados apresen- tassem resultados originais, nunca antes publicados em revistas estrangeiras pelos autores, nem houvesse esse objetivo a médio ou longo prazo. E foi este pormenor que levantou as maiores dificuldades em obter uma maior par- ticipação de autores, meus colegas na investigação básica. Passo a explicar. Toda a investigação que fazemos, seja em neurobiologia da dor ou outra, só tem reconhecimento, quer científico quer a nível curricular, se for publicada em revistas indexadas, com processo de peer-reviewing e preferencialmente estrangeiras. Deste modo a disseminação internacional é garantida, e o reconhecimento, com a possibilidade de abertura a colaborações com equipas estrangeiras, e financiamento de novos projetos, torna-se mais fácil. Para além disso, muitos dos dados obtidos resultam de trabalho para teses de dou- toramento e os nossos alunos têm que, obrigatoriamente, publicar em revistas indexadas. Por isso, nenhum investigador sensato, no seu melhor juízo, abdica de submeter para publicação em revistas estrangeiras resultados que foram adquiridos de forma rigorosa, e na maior parte das vezes também morosa, e que considera interessantes, e minimamente aceitáveis para serem aceites para publicação numa revista indexada internacional. Pedir-lhes que escrevam especificamente artigos típicos de investigação (com introdução, materiais e métodos, resultados e discussão) com dados originais para que sejam publicados só na revista Dor é algo que é impraticável. Eu própria estou na mesma posição que os meus colegas e é difícil, se não mesmo impossível, considerar esta hipótese. A nossa prioridade são, sempre, os artigos em língua inglesa e indexados.

Sendo assim, tentei que este número incluísse dois tipos de artigos. Os ditos de investigação original, divididos em introdução, métodos, resultados e discussão, mas sem o compromisso de que ainda não tivessem sido, pelo menos em parte, publicados em revistas estrangeiras, ou que não houvesse essa intenção por parte dos autores. E os artigos mais abrangentes, de revisão de um tópico específico, onde estão incluídos dados dos próprios autores. Assim, no que respeita aos artigos de investigação original, num procurou-se avaliar algumas alterações plásticas ao nível do sistema nervoso periférico induzidas por uma condição de dor inflamatória articular, onde se verificou ocorrer a expressão de marcadores de lesão neuronal («O marcador de lesão neuronal ATF-3 é expresso nos neurónios aferentes primários de ratos monoartríticos»). No outro, estudou-se de que modo é que a dor crónica (neste caso derivada de neuropatia periférica) pode afetar as funções cognitivas, nomeadamente a codificação da informação espacial efetuada ao nível do hipocampo («Neuropatia periférica induz instabilidade na codificação de informação espacial pelas place cells da área CA1 do hipocampo dorsal»). Os dois artigos de revisão focam-se nas recentes descober- tas relativamente quer à modulação descendente da dor num tipo de patologia que afeta cada vez mais pessoas em países desenvolvidos, a neuropatia diabética («Os efeitos da neuropatia diabética em componentes centrais do sistema de modulação da dor»), quer ao envolvimento do recetor vanilóide tipo 1 (TRPV1) em patologias urinárias e nos sintomas dolorosos a elas associados, assim como o possível uso clínico de antagonistas do TRPV1 no tratamento dessa sintomatologia («TRPV1 e dor visceral»).

Os quatro artigos publicados refletem a multidisciplinaridade (de tópicos e de metodologias) da investigação na área da dor efetuada no Departamento de Biologia Experimental da Faculdade de Medicina do Porto. Mas não são de todo abrangentes de toda a investigação básica feita neste campo em Portugal. Uma vez que a revista está condicionada a um número máximo de páginas por número, tal era, de facto, missão impossível. Por isso, fica a promessa de voltarmos com mais artigos de investigação básica, em futuros números da revista Dor. Para já desejo-vos uma leitura agradável e proveitosa.

Mensagem do Presidente da APED - Duarte Correia

Neste mês de maio de 2012 escrevo-vos estas breves linhas alusivas à «Página do Presidente» acreditando que este número da revista Dor dedicada às ciências «básicas» será do vosso maior agrado. A editora convidada deste número, a Professora Doutora Fani Neto, coligou alguns trabalhos de investigação, considerados muito relevantes, que apesar da complexidade destes, os ilustres autores dos artigos, redigiram-nos de uma forma inteligível para todos nós clínicos, permitindo uma leitura aliciante e muito atrativa.

Dirijo-me a vós na qualidade de presidente de uma direção por vós eleita, que porventura estará aquém das vossas expectativas, desejos, ou necessidades, mas que apesar das várias vicissitudes, e da «crise» socioeconómica que a todos nos atinge, tem tentado combater a letargia, evitar o conformismo, antítese do dinamismo que gostaríamos que fosse sinónimo da nossa atividade.
z Para esse desiderato, são fun- damentais as vossas sugestões, as críticas, o envolvimento e o empenho de todos vós, pois só assim será possível atingirmos os objetivos que nos propusemos.

Em outubro, nos dias 20 e 21, organizaremos na cidade de Leiria o V Encontro das Unidades de Dor, integrado na Semana Europeia/Dia Nacional de Luta Contra a Dor (20 de outubro), precedido no mesmo local (a 18 e 19 de outubro) das II Jornadas da Unidade de Dor do Centro Hospitalar Leiria-Pombal, estabelecendo uma parceria e uma estreitíssima cooperação organizativa e científica, potenciando uma sinergia que prevemos de excelência.

Propomos para este evento diversos painéis que decorrerão em simultâneo, cujas conclusões finais serão apresentadas e subscritas em documento apropriado e divulgadas posteriormente por diferentes meios, possibilitando um maior consenso, consistência e qualidade técnica dos mesmos, com uma difusão posterior o mais alar- gada possível.

Os temas a debater serão da maior importância e interesse, integrando especialistas convidados que farão a introdução aos mesmos e que animarão uma discussão que desejaríamos e antevemos participativa e profícua.
A avaliação da qualidade nas Unidades de Dor; que critérios definir; que aplicabilidade; a sustentabilidade das Unidades de Dor; o que se espera das Unidades de Dor; as terapêuticas não-farmacológicas no tratamento da dor crónica; os instrumentos de avaliação psicológica nas Unidades de Dor; o tratamento da dor crónica na criança (como e onde?); a integração sociolaboral das Unidades de Dor – evocando a multidisciplinaridade, programas de recuperação, terapêuticas ocupacionais, a psicologia social; ou ainda, as sempre mas atuais normas de orientação clinica (NOC) na dor crónica, implicações e necessidade. Se adicionarmos a estes workshops os resultados nacionais das avaliações das Unidades de Dor, a responsabilidade social das Unidades de Dor, as fontes de pesquisa de informação e novas tecnologias na informação (acessos e formas de divulgação), estaremos perante um programa interessantíssimo, cuja dificuldade residirá na decisão da opção na inscrição destes workshops.

E porque as nossas propostas não se esgotam no V Encontro das Unidades de Dor, nem nos eventos ou atividades que promovemos e divulgamos, alguns destes nesta «Página do Presidente», iremos realizar no sábado dia 1 de junho em Coimbra, uma reunião coordenada pela Dr.a Cristina Catana, destinada aos psicólogos que integram as Unidades de Dor tendo como objetivo: conhecer/reconhecer os psicólogos que trabalham em Dor a nível nacional; expandir e promover a visão da psicologia na área da Dor; uniformizar procedimentos de referenciação, avaliação e intervenção psicológicas, formar futuros grupos de trabalho, tendo como referência última a necessidade de implementar de forma consensual e continuada os denominados «registos eletrónicos» nas Unidades de Dor, permitindo uma gestão adequada e otimizada dos meios e recursos disponíveis.

E, porque nem tudo são ou serão êxitos ou sucessos, objetivos atingidos ou metas conseguidas, é com enorme apreensão que antevejo
a extinção anunciada da atual Comissão Nacional de Controlo da Dor (CNCDOR). A CNCDOR
e a sua predecessora Comissão de Acompanhamento do Plano Nacional de Luta Contra a Dor (PNLCDOR), presididas/coordenadas pelo Professor Doutor Castro Lopes e posteriormente
pelo Dr. José Romão, desempenharam uma missão importantíssima e do maior relevo no pano-
rama da Medicina da Dor em Portugal, realizando um trabalho vasto e profícuo, cujas normas
ou diretrizes alteraram de uma forma profunda e insofismável o tratamento da Dor em Portugal, que se traduziu e significou de forma inequívoca o reconhecimento desta área do conhecimento científico inter pares, perante o poder político e a sociedade civil.

Uma maior apreensão e preocupação, perante a (in)sustentabilidade das Unidades de Dor, cujos centros de custos próprios e independentes definidos pelo Programa Nacional de Contro- lo da Dor necessitam e tornam imperativa a publicação com a maior premência possível, pese todas as circunstâncias político-económicas atuais, da Tabela de Medicina da Dor, sucessivamente protelada e adiada, cujos trabalhos se iniciaram no já distante ano de 2009, no âmbito da CNCDOR e posteriormente desenvolvidos e concluídos na Administração Central dos Sistemas de Saúde, IP (ACSS).

Perante a extinção da CNCDOR, a responsabilidade da APED na sensibilização dos deci- sores e do poder político torna-se acrescida, para materializar uma maior celeridade na publicação em Portaria desta lista de procedimentos em Medicina da Dor relativos às atividades das Unidades de Dor/Medicina da Dor, constituindo este um objetivo primordial e incontornável, pelo que desenvolveremos todos os nossos esforços na sua almejada concretização.