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NORMA DE ORIENTAÇÃO CLÍNICA PARA TRATAMENTO DA DOR NEUROPÁTICA LOCALIZADA

Miguel Julião
Filipa Fareleira
João Costa
António Vaz Carneiro

Editorial - António Vaz Carneiro

Uma prática clínica moderna quer-se eficaz, segura e economicamente racional. De facto, passámos ao longo dos últimos decénios de «fazer as coisas mais baratas» (eficiência) a «fazer as coisas melhor» (melhoria da qualidade), desta a «fazer as coisas de maneira correta», depois a «fazer as coisas certas» (efetividade) a, presentemente, «fazer as coisas certas de maneira correta e sustentável» (medicina, gestão e políticas baseadas na evidência).

Este último desiderato que nos é pedido a nós, médicos (e outros profissionais de saúde), é de uma extraordinária complexidade e a res- posta à questão (lógica) de «... como se define o que são coisas certas, a maneira correta de as fazer e o que se considera sustentável» constitui todo o cerne da nossa integração profissional numa sociedade moderna.

O método científico – com todos os seus problemas, incertezas e influências culturais (nomeadamente na interpretação dos dados) – é o único que, juntamente com a nossa experiência pessoal, nos pode dar alguma base prática para decidir. Acreditamos que a linguagem científica é aquela que melhor descreve a realidade da doença e da saúde e as respetivas complexidades. Esta ideia aparentemente não controversa (qual é o médico que acha que a ciência é inútil para a sua prática?), esbarra na extrema dificuldade de gestão de uma informação de grandes dimensões (2-3 milhões de artigos biomédicos publicados cada ano), de qualidade variável (uma parte significativa destes estudos não passa os escrutínios metodológicos rigorosos) e de difícil compreensão pelos clínicos (basta ver a opacidade e complexidade das descrições dos métodos estatísticos de um qualquer ensaio clínico).
Assim sendo, e devido ao facto de hoje em dia se estudar tudo em saúde (doentes, doenças, métodos, resultados, gestão, políticas, etc.), da qualidade média da evidência assim produzida ser muito melhor do que no passado recente e, finalmente, estar localizável por meios informáticos, então a questão não é de saber se existe uma resposta às nossas questões (existe com certeza), mas sim onde é que ela está (como se localiza) e, quando a obtemos, saber se ele é de boa ou má qualidade.

Para a resolução de pelo menos parte destas questões, aceita-se hoje em dia que as normas de orientação clínica (NOC) (a tradução correta, a nosso ver, das guidelines) sejam os instrumentos ideais. Com efeito, uma NOC – ao sintetizar vastas quantidades de evidências científicas e apresentá-las prontas a utilizar pelo seu efector (o clínico) – pode ser a resposta à questão acima colocada: «fazer as coisas certas de maneira correta e sustentável». Mas, para que assim seja, é preciso que a sua metodologia assente em dados científicos de alta qualidade e não apenas em opinião de peritos. Isto porque hoje em dia se entende que a credibilidade de um texto desta natureza se encontra na metodologia com que ele foi elaborado, e não no eventual prestígio profissional dos seus autores... De resto, existe evidência que os peritos têm opiniões en- viesadas sobre a ciência de base que deve servir de base à prática clínica (as suas convicções sobrepõem-se em grande percentagem de vezes à sua racionalidade na análise dos dados).

A presente «Norma de Orientação Clínica para Tratamento da Dor Neuropática Localizada» publicada pela revista Dor é um exemplo desta abordagem: o tópico é de enorme importância clínica – quer pelo sofrimento que provoca nos doentes, quer pela variação da prática clínica existente, quer pelos custos envolvidos – a metodologia é a das recomendações serem baseadas na evidência de melhor qualidade e a sua aplicabilidade no dia a dia pode ser imediata. O Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência da Faculdade de Medicina de Lisboa procurou, com este texto, resumir a melhor evidência para a terapêutica desta patologia e disponibilizá-la aos médicos, esperando que os colegas achem este instrumento útil no tratamento dos doentes com dor neuropática.

Gostaríamos de apresentar agradecimentos muito especiais à senhora Dr.a Sílvia Vaz Serra, Diretora da revista Dor, que nos abriu as suas portas para publicarmos estas NOC, e ao senhor Dr. Francisco Duarte Correia, Presidente da APED, pelo apoio concedido à divulgação deste nosso trabalho que esperamos achem útil.

Mensagem do Presidente da APED - Duarte Correia

Escrevo-vos neste mês de setembro este curto texto que será publicado na revista Dor n.o 3 de 2011, inteiramente dedicada à «Norma de orientação clínica para a dor neuropática», elaborada pelo Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência da Faculdade de Medicina da Universidade Clássica de Lisboa, dirigido pelo professor doutor A. Vaz Carneiro, entidade de referência nacional e reconhecido prestígio internacional.

Se adicionarmos à metodologia, independência e rigor com que estas normas foram elaboradas, à oportunidade do momento, este número da revista será uma referência para todos os que se dedicam à Medicina da Dor em Portugal e objecto incontornável de uma consulta que permitirá um melhor tratamento aos nossos doentes sofredores deste síndrome complexo.

Na dupla qualidade de médico e de presidente desta sociedade, considero uma honra que revista Dor tenha sido o meio escolhido pelo autor para publicar e difundir a «Norma de orientação clínica para a dor neuropática», que é na minha opinião um contributo extremamente importante para o tratamento desta patologia.

Recordo-vos que os eventos comemorativos no âmbito da Semana Europeia e do Dia Nacional de Luta Contra a Dor decorrerão de 10-15 de outubro. Pretendemos que os mesmos não se restrinjam às cerimónias oficiais, mas que cada um de vós (preferencialmente de segunda a quarta-feira) organizem nos vossos hospitais, centros de saúde ou na comunidade onde se inserem uma actividade alusiva, vocacionada para o público ou para os profissionais de saúde, contribuindo de forma inequívoca para o sucesso desta semana europeia.

Em Lisboa, como referi no número anterior da revista, iremos organizar em parceria com a Fun- dação Grünenthal um curso Pain Management, State of the Art solidário com Moçambique, nos dias 13 e 14 de outubro de 2011, na Fundação Champalimaud, promovendo de uma forma con- tinuada a nossa colaboração com a organização não governamental Douleurs Sans Frontières (DSF) e com os profissionais que se dedicam ao tratamento da dor na República de Moçambique.

A mesa de debate e controvérsia que decorrerá na tarde de sexta-feira dia 14 de outubro, moderada pela jornalista C. Borges, dedicada aos «Aspectos éticos, sociais e económicos da dor não tratada», será certamente pela excelência, rigor intelectual e nível científico das individualidades convidadas um dos momentos mais elevados destas comemorações, para a qual antevejo uma larga e interessada assistência.

De acordo com a tradição, durante a cerimónia oficial procederemos à entrega dos prémios Grünenthal Dor, Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED)/Janssen – «Vou desenhar a minha dor», e melhor artigo da revista Dor/Bene Farmacêutica 2010.

Na manhã de sábado os workshops Doc Help® «Liderança e gestão de equipas» e «In- tervenção psicológica em dor» necessitarão de inscrição prévia (a efectuar no secretariado da APED), bem como os workshops «Registos de enfermagem e os registos electrónicos nas unidades de dor». Nestes dois últimos será da maior importância a vossa presença e participação como associados da APED ou de represen- tantes das unidades, aportando as vossas pro- postas, críticas e sugestões, imprescindíveis para que estas reuniões se traduzam em algo de concreto, com implicação futura na nossa ac- tividade clínica.

Estamos particularmente entusiasmados com o evento «Dançar com a dor», efectuado no âmbito desta Semana Europeia, previsto para as 16 h do sábado, 15 de outubro no centro comercial Vasco da Gama, destinado ao público que aflui a esse local, crendo que a vossa presença será um importante contributo para o sucesso e para a repercussão mediática inerente ao mesmo.
É de importância fundamental a vossa participação!

Até breve!...