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Director da revista
Sílvia Vaz Serra

Editores
Armanda Gomes
Ananda Fernandes
Graça Mesquita


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Súmario

  • Mensagem do Presidente da APED - José Romão - 3
  • Editorial - Sílvia Vaz Serra - 4
  • Avaliação Objectiva da Dor: Condutância
Eléctrica Cutânea - Diana Afonso, Ana Castro, Eduarda Amadeu e Pedro Amorim - 5
  • Abordagem Psicossocial da Fibromialgia - Paula Oliveira e Maria Emília Costa - 9
  • Osteoporose e Dor - Filipe Antunes - 17
    Dos Gestos Externos aos Movimentos Internos:
(A)pesar da Dor - João Boavida - 19
  • Rever o Passado, Antever o Futuro - José Luís Portela - 23
  • Antagonistas do Receptor N-Metil-D-Aspartato na Prevenção e Tratamento da Dor Aguda Pós-Operatória - Tiago Taleço, Laila Castelo-Branco, Andreia Henriques, Tânia Seixas, Elsa Alberto, Jorge Cortez e João Silva Duarte - 28
  • Impacto de Opióides Major em Dor Crónica não-Oncológica - Janete Jesus, Ana Almeida, Ana Cunha, Silvia Vaz Serra e Edith Castro - 36
  • Bloqueio Intratecal de Factor de Crescimento
Nervoso Diminui a Dor Referida e a Hiperactividade Vesical em Animais com Cistite - Bárbara Frias, Shelley Allen, David Dawbarn, Francisco Cruz e Célia Duarte Cruz - 39

Editorial - Sílvia Vaz Serra

Pensamentos, escritos nas décadas de 1930-1940, que realçam a importância da ciência e publicação como forma de uma sociedade evoluir e que, ainda hoje, mantêm toda a pertinência e actualidade.

«... A ciência é criação perseverante, um fieri, um faciendum, nunca um factum; é sempre criacionismo, nunca estado ou repouso. A ciência só pode rotular-se de ciência na medida exacta em que opera, incessantemente, ensaios!... Quem faz ensaios, embarca numa aventura em pleno mar alto; depois de muita tormenta sobre as ondas, lança ferro aqui, mas para logo desaparelhar no dia imediato e seguir novo rumo. Até quando e até onde? Até... sempre, ou até... nunca; até ao infinito!»

«... A actividade científica tanto se pode exercitar na investigação e colheita de factos novos, como na sistematização, clarificação e simplificação do já sabido... a verdade da segunda parte deste passo está dependente da qualidade ou do valor científico do já sabido. Porque, se esse já sabido for o sabido errado, o sabido livresco, erudito, o sabido alheio ao experimentalismo crítico, como afirmar que o espírito científico se exercita nesse já sabido que é a sua própria e rotunda negação?»

«... Pois o passado científico não é necessariamente sinónimo de erróneo porque passado. A história das ciências mostra-nos que as teorias “defuntas” do pretérito não raro “ressuscitam” com redobrado vigor... É que ele sabe que a ciência, por definição, nunca está conclusa, que o saber humano não é fruto gratuito de uma revelação, mas uma laboriosa construção progressiva feita de empurrões desencadeados ora da direita ora da esquerda, que a explicabilidade de uma teoria é sempre in-total, ou não exaustiva.»

«... A pressa exterior suscita a pressa interior. Esse é o mal da juventude contemporânea. Tudo realizado à pressa, uma improvisação febril, de 90 graus. Despreza-se o trabalho lento, metódico, que exige dilatado tempo, vagarosa matura- ção... Daí a superficialidade e uma ausência de escrúpulos de tantos moços, o horror do noviciado científico, o apego ao fugitivo e ao efémero, etc. ... mas subentende-se dos 100 à hora num corpo cujo cérebro trabalha –intelectualmente– com segurança, harmonia, fecundidade e calma, isto é, a 20 à hora!»

«... Em resumo: a substituição de um texto por outro texto, de um autor por outro autor nada significa se o espírito ou a estrutura mental de quem a fez não variou; se não evoluiu do autoritário para o crítico, do livresco para o ensaístico, isto é, se não se auto-libertou; caso contrário, plus ça ne change, plus ça c’est la même chose

«... A publicação de um artigo científico é uma forma de transmitir à comunidade técnico-científica o conhecimento de novas descobertas, o desenvolvimento de novos materiais, técnicas e métodos de análise nas diversas áreas da ciência. Um texto contém em si muitos outros textos. Aquele que lê, não lê apenas, passivamente as palavras. Ao efectuar a sua leitura produz, no exercício de interpretação, um outro texto que lhe é próprio. O leitor é, neste sentido, co-autor de uma obra que se perpetua, justamente pela pos- sibilidade de ser relida e portanto reescrita.»

«... Aqueles que produzem conhecimento, que investigam o real e o re-significam utilizando critérios e caminhos apropriados estão inseridos no locus científico. E o que é a ciência senão um modo de indagar e uma maneira de buscar respostas? A ciência alimenta-se e perpetua-se pela sua capacidade de manter acesas perguntas e desafios frente a uma realidade que torna a perplexidade do ser humano a sua possibilidade de interferência, domínio e modificação do real. Assim, ao expor, publicar e divulgar um certo conjunto de proposições ou de dados resultantes de pesquisas efectuadas, organiza-se a compilação, enriquecimento ou refutação do trabalho em questão. Pois, a ciência e o saber produzido por ela é fruto de diálogos, concessões e adequações a métodos e paradigmas. Um artigo é produzido para ser lido.»
«... Um texto que é publicado e lido fica destituído do seu carácter solitário e se transforma em resultado, parceria de autor e leitor, por um processo subtil de reescrita.»

Sílvio Lima in Obras Completas.

Mensagem do Presidente da APED - José Romão

Este texto foi escrito em Novembro de 2010 e não na data de capa.

A International Association for the Study of Pain (IASP) organizou no passado dia 3 de Setembro em Montréal (Canadá), na sequência do 13.o Congresso Mundial da Dor, a primeira International Pain Summit. Alguns dos objetivos consistiam em: elaborar um conjunto de princípios gerais que sirvam de base à criação de estratégias nacionais para o controlo da dor; alertar governos, comunidades e meios de comunicação para o problema de saúde e impacto que representa a dor (aguda, crónica, oncológica, etc.) não tratada; chamar a atenção para o alívio da dor como um dos direitos fundamentais do indivíduo; defender a necessidade de mais formação e investigação sobre dor.

O evento contou com a presença, entre ou- tros, de representantes dos capítulos nacionais da IASP; decisores políticos da área da saúde; Organização Mundial de Saúde; representantes do International Narcotics Control Board; organizações nacionais de doentes, e órgãos de comunicação internacionais. Apresentei, enquanto presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED), a história do que tem sido a estratégia nacional portuguesa para o controlo da dor e em particular o Programa Na- cional para o Controlo da Dor. Este, numa análise comparativa das diversas estratégias nacio- nais disponível no site da IASP, é apresentado como um dos mais concordantes com aquelas que são consideradas as características desejáveis para essas estratégias.

Decorreu de 14-16 de Outubro de 2010 em Lisboa, no Hotel Villa Rica, o 3.o Congresso In- terdisciplinar de Dor. Ocorreu durante a Semana Europeia Contra a Dor, este ano dedicada ao tema «O impacto social da dor». Contou com mais de 250 participantes. Saliento uma forte participação de enfermeiros e psicólogos. No dia 15 comemorou-se mais um Dia Nacional de Luta Contra a Dor. Neste âmbito foi proferida confe- rência para apresentação de resultados de estu-  relativo ao impacto social e económico da dor crónica em Portugal. Representa sem dúvida um contributo de enorme qualidade para o conhecimento do panorama da dor crónica no país.

Em 17 de Outubro teve início o Ano Global Contra a Dor Aguda. A IASP selecionou um tópico que a maioria dos profissionais de saúde tem quase ignorado, apesar da sua prevalência e consequências na esfera pessoal e social.

Embora este texto esteja publicado na secção «Mensagem do presidente», à data já não ocupo esse cargo. A alternância é desejável e saudável. Tal como previsto, realizou-se em 16 de Outubro uma Assembleia Geral para proceder à eleição dos novos corpos sociais. Saliento com satisfação a participação excepcionalmente elevada quando comparada com o habitual. À nova equipa que agora se ocupa da condução do destino da APED desejo as maiores felicidades e êxitos.

Em 2007, quando tomei a decisão de me candidatar à direção da APED, animava-me o sentido do dever e a vontade de contribuir para a melhoria do tratamento da dor em Portugal. Seguiram-se 3 anos de intensa atividade, algumas concretizações, bastantes momentos de satisfação mas também algumas frustrações. Deixarei para vós a avaliação deste mandato. Do ponto de vista pessoal o balanço é francamente positivo. Agradeço a todos quantos me acompanharam e colaboraram nesta «aventura».

Até sempre.