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INVESTIGAÇÃO BÁSICA

Director
José Manuel Castro Lopes

Editores
Luís Agualusa

José Manuel Castro Lopes
Teresa Vaz Patto
Sílvia Vaz Serra


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Súmario

  • Mensagem do Presidente da APED - José Manuel Castro Lopes - 3
  • Receptor Vanilóide TRPV1 é Essencial
para a Génese da Alodínia e da
  • Hiperactividade Vesical na Cistite - Ana Charrua, Célia Duarte Cruz, Francisco Cruz e António Avelino - 5
  • Integração do Núcleo Reticular Dorsal do Bolbo Raquidiano na Rede Supra-espinal
de Controlo da Dor - Hugo Leite-Almeida e Armando Almeida - 10
  • Expressão do ARNm para as Subunidades
do Receptor GABAB no Tálamo de Ratos
Normais e Monoartríticos - Joana Ferreira-Gomes, Fani L. Neto e José M. Castro-Lopes - 16
  • Biestabilidade da Actividade Espontânea
nos Neurónios da Medula Espinhal Dorsal do Rato - Clara Monteiro, Deolinda Lima e Vasco Galhardo - 28
  • Um Método Electrofisiológico para Identificação
de Conexões Sinápticas entre Interneurónios
Espinais - Sónia F.A. Santos e Boris V. Safronov – 35

Mensagem do Presidente da APED - José Manuel Castro Lopes

Na sequência do Global Year of Pain in Children promovido pela International Association for the Study of Pain (IASP), a APED decidiu centrar as comemorações do 8.o Dia Nacional de Luta Contra a Dor no tema «A dor na criança».

As principais actividades relacionaram-se com o concurso de desenhos infantis organizado pela APED com o patrocínio da Janssen-Cilag. Refira-se que esta iniciativa foi muito elogiada pelo presidente da IASP, Prof. Troels Jensen, e pelo presidente do Special Interest Group on Pain in Childhood da IASP, Prof. Allen Finley, de tal modo que os desenhos classificados nos três primeiros lugares foram colocados no sítio da IASP na internet (www.iasp-pain.org/GD2005KDrawings. html), e o desenho classificado em primeiro lugar foi colocado na página de abertura do sítio daquele grupo na internet (www.childpain.org). Os desenhos classificados nos três primeiros lugares estão também patentes no renovado sítio da APED na internet (www.aped-dor.org). Além disso, alguns dos principais desenhos submetidos a concurso foram expostos em diversos hospitais do país no Dia Nacional de Luta Contra a Dor, e realizou-se uma cerimónia de atribuição dos prémios aos três primeiros classificados. A cerimónia foi presidida pela Dr.a Maria Cavaco Silva, reproduzindo-se em seguida o discurso que o presidente da APED proferiu na ocasião.

«Na qualidade de presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor agradeço a vossa presença nesta cerimónia que assinala o 8.o Dia Nacional de Luta Contra a Dor e, simul- taneamente, encerra o concurso de desenhos infantis que a APED promoveu no âmbito do ano internacional dedicado à dor na criança, com o generoso patrocínio da Janssen-Cilag.

Nunca é demais recordar que Portugal foi pioneiro na Europa, quiçá no mundo, ao criar em 1999 um Dia Nacional dedicado exclusivamente à dor. Como qualquer outro dos dias nacionais, o objectivo principal é chamar a atenção da população em geral, mas também dos profissionais de saúde e das entidades competentes, para o verdadeiro problema de saúde pública que a dor representa, nas suas múltiplas vertentes.

A dor aguda, que resulta por exemplo de um traumatismo, uma queimadura, uma úlcera gás- trica ou uma cólica renal, tem uma importância fundamental para a preservação da integridade física do indivíduo e mesmo para a sua sobrevida. Por isso não é possível nem desejável eliminar totalmente a dor. No entanto, cumprida a sua função de sinal de alarme, deve ser combatida com todas as armas terapêuticas que temos hoje ao nosso dispôr, por forma a reduzir a morbilidade e o sofrimento que lhe estão associados, e que estão tão bem patentes nos desenhos que recebemos de crianças internadas em hospitais de todo o país. Foram cerca de 130 desenhos que ilustram de forma muito significativa o quanto ainda está por fazer neste âmbito. O alívio da dor deve ser reconhecido como um direito huma- no e um objectivo fundamental na melhoria da prestação de cuidados de saúde à população em geral e às crianças em particular. Numa altura em que tanto se fala na humanização dos cuidados de saúde, é fundamental criar as condições para que a dor seja devidamente identificada, avaliada e tratada atempadamente.

Foi nesse sentido que propusemos a criação da norma que instituiu a dor como quinto sinal vital, que viria a ser aprovada faz hoje precisamente 3 anos, e que mais uma vez pôs Portugal na primeira linha no combate à dor. É fundamental que esta norma seja cumprida na íntegra pelos profissionais de saúde, e a APED tem vindo a promover diversos cursos, sob a coordenação da Prof.a Ananda Fernandes, que visam precisamente dar formação sobre a avaliação da dor. De facto, não basta produzir documentos bem intencionados, é necessário ir para o terreno e modificar hábitos e mentalidades enraiza- das em conceitos inaceitáveis no século XXI, que levam a que a dor seja frequentemente su- bestimada, escondida ou até negada, tanto pelos doentes como pelos profissionais de saúde.

No mesmo sentido, é imperativo que se cumpram os objectivos do Plano Nacional de Luta Contra a Dor, que, curiosamente, entrou em vigor em 2001 pela mão do senhor ministro da Saúde, Dr. Correia de Campos. Muito foi feito desde então, em particular no âmbito da dor crónica, mas existem diversos obstáculos, de natureza organizativa, financeira e de escassez de recursos humanos, que ainda não foi possível ultrapassar, e que representam uma profunda frustração para quem está empenhado em promover aquele plano.

Perguntava-me ontem uma jornalista quantos portugueses sofrem de dor crónica e quais os
custos que isso acarreta para a sociedade. Infelizmente ainda não temos dados fidedignos,
mas está neste momento em curso um estudo, realizado por investigadores da Faculdade de Medicina do Porto, que irá responder a essas questões em breve. Enquanto não dispomos desses dados, tudo o que podemos fazer é extrapolar a partir de estudos realizados noutros países europeus, e que apontam para que exis- tam em Portugal cerca de 1 milhão de pessoas a sofrer de dor crónica. Sabemos também que a dor é a primeira causa de consulta dos médi- cos de família e podemos estimar que o custo para a sociedade das lombalgias, as vulgares dores de costas, que diga-se representam a forma mais comum de dor crónica, deverá rondar os 2.000 milhões de euros ou 400 milhões de contos na moeda antiga.

Estamos, pois, perante um grave problema de saúde pública, com repercussões socioeconómicas comparáveis às das doenças cardiovasculares ou do cancro, embora com uma enorme diferença: é que a dor, apesar do sofrimento que acarreta, por vezes quase insuportável, raramente mata. Mas se são poucos os que morrem de dor, muitos são os que morrem com dor e mais ainda os que com ela convivem diariamente, e para modificar esta situação necessitamos da ajuda de todos.

Termino, agradecendo penhoradamente a presença da Ex.ma Sr.a Dr.a Maria Cavaco Silva. Estou certo que acabamos de ganhar uma valiosa aliada nesta luta sem tréguas a bem dos doentes do nosso país.»

PS. Conforme acima referido, o sítio da APED na internet foi renovado. Gostaríamos de receber comentários e sugestões dos sócios da APED, bem como notícias que pretendam divulgar.