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TERAPÊUTICAS COMPLEMENTARES EM DOR CRÓNICA

Editor convidado
Sílvia Vaz Serra - Coordenadora da unidade de Dor. Centro Hospitalar dos Covões. Coimbra, Portugal

Director
Jose Manuel Castro Lopes

Editores
Luis Agualusa

Jose Manuel Castro Lopes
Teresa Vaz Patto
Sílvia Vaz Serra

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Súmario

  • Mensagem do Presidente da APED – 3
  • Editorial
    • Terapêuticas complementares – 5
  • A Acunpuctura – 7
  • Intervenção do Serviço social na Unidade de Dor – 11
  • Dor Crónica na Perspectiva da Psicologia Clínica – 15
  • Dor Crónica e Medicina Fisica e de Reabilitação – 19
  • Hipnose Clínica – 25
  • O Psicodrama no Tratamento da Dor Crónica – 29
  • Cracterização da Dor Osteoarticular aguda em Serviçoes de Urgência e Consulta de Ortopedia em Portugal – Perfil do Doente, da Dor e da Resposta à Terapêutica – 35

Editorial - Terapeuticas complementares - Sílvia Vaz Serra

A dor, forte e imprevista,
ferindo·me. Imprevista
de branco e de imprevisto
foi um deslumbramento,

que me endoidou a vista,
fez-me perder a vista
fez-me fugir a vista
num doce esvaimento

...A dor. deserto imenso,
branco deserto imenso
resplandecente e imenso,
foi um deslumbramento,
Todo o meu ser suspenso,
não sinto já, nao penso,
pairo na luz, suspenso
num doce esvaimento...”'

A dor, especialmente a dor crónica, interfere, perturba e destrói todas as estruturas fisicas e psicológicas de um individuo

“O poeta eum fingidor

tinge tao completamente
que chega a finge que é dor
a dor que deveras sente.
...E os que lêem o que escreve
na dor Iida sente bem,
não as dores que ele teve
mas só a que eles nao têem...”2

A dor leva á revolta

“ …Nao me venham com conclusões!

A única conclusão é morrer...

...Se têm a verdade, guardem·a!

...Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
...Deixem-me em paz! Nao tardo que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! “3

“...Se ao que busco saber nenhum de vós responde. Porque me repetis: "Vem por aqui?"...”4

A dor leva ao desespero, ao abandono

“...Viver sempre tambem cansa...
...Tudo e igual, mecanico e exacto.
...Pois nao era mais humano
Morrer por um bocadinho.
De vez em quando,

E recomeçar depois,
Achando ludo mais novo?”5

“…somos a vida não é,
For a não ser a morte
Nem mesmo nada somos.
Estamos no que fomos
à espera do que importe…”6

“...Ao fim terrivel que me espera extenso...
...Por nós, por ti, por mim, falou a dor,
E a dor e evidente - libertada.”7

A dor tambem leva à esperanrça à luta
“...A minha voz de morte é a voz da luta:
Se quem confia a própria dor prescruta,
Maior glória tem em ter esperança.”8

0 papel das unidades de dor epermitir uma abordagem holistica, multidisciplinar do doente. São valiosas as terapêuticas complementares as terapêuticas tarmacológicas.

“Nao ha, nao
Duas folhas iguais em toda a criacao.. .
...Umas vao e caem no charco cinzento
e lancam apelos nas ondas fazem,
outras vao e jazem
sem mais movimento...”9

“...Nenhum passaro
permite a morte dominar

o azul do seu canto.

Faz como eles:

danca de ramo em ramo.”10

“ ...Porque o dia constrói-se não se espera,
nao é sol que deflagre num improviso de luz.
É um orfeao de vozes surdas, um arfar de troncos nus
O erguer, a uma s6 voz, dos remos da galera...”11

“ 0 corpo nunca é triste
o corpo é lugar
mais perto onde o lume canta

e na alma que a morte faz a casa." 12

A medicina ffsica e de reabilitacao, a terapia ocupacional, a psicologia, a acupunctura, o servico social sao pedras basilares nesta abordagem multidisciplinar que permite a reducao dos insuces- sos. a diminui<;ao da dependencia farmacol6gica e a obtencao de uma etectiva melhoria da qua- lidade de vida.

”...Aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali,
animas-te, esmoreces, ha os outros, mores
mas quando foi? Aonde te doia? Dividias-te
entre o fim do verão e a renda da casa
que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horario de trabalho, uma familia, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vitima de olhares
que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sotro tanto tempo gasto.”13

Que o nosso tempo nao seja em vão. Obrigado.


Citações
:
1.Pessanha C. Branci e vermelho;
2. Pessoa F. Autopsicografia;

3. De Campos A. Lisbon revisited;
4. Régio J. Cântico negro;
5. Gomes Ferreira J. Viver sempre também cnsa
6. Nemésio V. Nada;
8. Oliveira C.Soneto
9. Gedeão A. Pastoral;
10. Andrade E. De ramo em ramo;
11. Gedeão A. Escopro devida;
12. Andrade E. O lugar mais perto;
13. Belo R. Ácidos e Óxidos.

Mensagem do Presidente da APED - Jose Manuel Castro Lopes

O 11.° Congresso Mundial da Dor da International Association for the Study of Pain (IASP) decorreu em Sidney no passado mes de Agosto. Como vem sendo habitual, tratou-se de uma oportunidade excelente para ficar a conhecer os avanços mais recentes no que diz respeito aos multiplos aspectos da dor, desde a sua investigação básica até aos problemas sociológicos que acarreta. Esta multidisciplinaridade, que também se reflecte no conteúdo da revista da IASP, a Pain, e talvez ímpar entre as disciplinas médicas e uma das grandes mais valias destes congressos. O relacionamento e troca de conhecimentos entre especialistas com abordagens muito distintas do problema dor, constitui uma experiencia enriquecedora para quern nela participa ou, simplesmente, a ela assiste.

Contudo, infelizmente nao tem sido possivel traduzir para a pratica clinica grande parte do conhecimento, cada vez mais detalhado, dos mecanismos fisiopatológicos da dor. As razões são multiplas. a começar pela dificuldade em interferir com mecanismos que são comuns a outros processos fisiológicos do sistema nervoso. A título de exemplo extremo, nao e possivel administrar um antagonista do neurotransmissor excitatório mais utilizado no sistema nociceptivo, o glutamato, sem interferir com quase todas as outras funções do sistema nervoso central, onde o glutamato desempenha tarnbem um papel crucial como neurotransmissor excitatório. Talvez por esta razão esteja a receber tanta atenção um subtipo de canais de s6dio que parecem ser exclusivos dos nociceptores. Tanto quanto sei, varias empresas da industria farmaceutica estarao a desenvolver antagonistas ou bloqueadores daqueles canais para fins terapeuticos.

A importancia de se aplicar na pratica clfnica os achados da investigaçao basica, levou a que os programas de financiamento de investigação cientifica da Comissao Europeia passassem a dar particular enfase ao que se designa hoje em dia par investigaçao de translaçao, isto e, que pretende estabelecer a ponte entre a investigaçao basica e a sua aplicação pratica. No mesmo sentido parece ir a politica da Fundação Champalimaud, segundo o que pudemos constatar nas declaraçoes da sua presidente, Drª. Leonor Beleza. Pena e que a dor nao esteja nos seus objectivos imediatos.

Por outro lado, a investigação clínica da dor em Portugal tern sido muito escassa, fruto de condicionalismos vários, que vão desde a falta de motivação a falta de tempo e meios humanos e materiais. Sao raríssimos os trabalhos publicados pelos clínicos portugueses, sendo por isso de salientar o artigo publicado neste número da Dor por um grupo de colegas ortopedistas, apesar das limitações do trabalho, reconhecidas pelos próprios autores.

Voltando ao congresso mundial, o novo presidente da IASP. Troels Jansen, salientou no seu discurso inaugural que uma das prioridades do seu mandala será apoiar os jovens que se estão a iniciar na investigação e tratamento da dor. lsto levou-me a reflectir na necessidade por muitos sentida, de se atrairem novos elementos para as unidades de Dor portuguesas. É, sem duvida, um problema com multiplas vertentes que irá ser fruto de uma reflexão num fórum promovido pela APED, de que darei conta num futuro próximo.

Mas rei morto, rei posto, e a IASP está já a pensar na organização do próximo congresso. Para o efeito, Troels Jansen surpreendeu-me com o convite para presidir a comissão encarregue de estabelecer o programa cientifico do 12.° Congresso Mundial de Dor, que decorrerá em Glasgow em Agosto de 2008. Trata-se de uma enorme responsabilidade (são 18 conferencias plenárias, 90 simpósios e 16 cursos, para além das comunicações livres que devem ultrapassar os dois milhares), acrescida pela edição de um Proceedings Booke pela participação em mais duas comissões da IASP (lnvestigação e Publicações), mas que, assim espero, irá contribuir para o reforço da projecção da APED a nível internacional.

PS. Apesar de todos os esforços dos editores da revista Dor, mais uma vez foi impossivel a sua publicação no prazo previsto. A fase de transição encetada com a mudança da direcção da revista tem-se prolongado para além do que seria desejável. Renovarnos o nosso pedido de desculpas aos leitores, autores e patrocinadores.