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INVESTIGAÇÃO BÁSICA SOBRE DOR EM PORTUGAL

Director
José Manuel Castro Lopes

Editores
Luís Agualusa
José Manuel Castro Lopes
Teresa Vaz Pato
Sílvia Vaz Serra

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Súmario

  • Editorial Aquém da Clínica - Deolinda Lima - 3
  • Mensagem do Presidente da APED - José Manuel Castro Lopes - 4
  • Mecanismos Fisiopatológicos da Dor Neuropática Diabética - Carla Morgado e Isaura Tavares - 5
  • Efeitos da Activação de Receptores GABAB do Complexo Ventrobasal Talâmico em Ratos Sujeitos a Testes de Dor Inflamatória Aguda e Crónica - Catarina Soares Potes, Fani Lourença Neto e José Manuel Castro Lopes - 11
  • A Estimulação Mecânica de Articulações Monoartríticas Induz Fosforilação das ERKs 1 e 2 na Medula Espinhal - Célia D. Cruz, Fani Neto, José Manuel Castro Lopes, Stephen B. McMahon e Francisco Cruz - 20
  • Efeito do Antagonista do Receptor de Glicina (Estricnina) no Tempo de Latência de Resposta de Neurónios da Medula Espinhal de Rato: um Estudo com Multieléctrodos -Helder Cardoso-Cruz, Clara M. Monteiro, Deolinda Lima e Vasco Galhardo - 28
  • Caracterização do Novo Composto Iodoresiniferatoxina (IRTX): Efeitos no Receptor Vanilóide. - Ana Charrua, António Avelino, Célia D. Cruz, Francisco Cruz - 36

Editorial - Aquém da Clínica - Deolinda Lima

Foi mais uma vez entender do corpo editorial da revista Dor dar a conhecer aos seus leitores, na maioria profissionais que se dedicam à assistência médica e paramédica neste domínio da saúde, um pouco do que está por detrás dos conhecimentos que governam a sua prática diária. Fá-lo trazendo à «praça pública», o mesmo é dizer a um fórum de participação alargada e diversificada, uma série de dados que, de outro modo, só se revelariam mediante busca aturada e complexa nas muitas revistas científicas internacionais que tratam do assunto.

O critério foi, não tanto o de juntar o que de mais recente e relevante se produziu em termos de investigação básica no domínio da dor, mas antes o de traçar, ainda que de modo sumário e incompleto, o panorama do que a esse respeito se faz em Portugal. Importa ressalvar, no entanto, que a opção não resultou na omissão de resultados situados entre os mais significativos para o progresso deste ramo do conhecimento, dado que a investigação em dor no nosso país ocupa hoje lugar de liderança em alguns domínios.

Os trabalhos seleccionados emanam do Grupo de Morfofisiologia do Sistema Somato-Sensitivo, que dirijo com muita satisfação e cujo trabalho se desenrola na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e no IBMC. Trata-se de um grupo com uma história de cerca de 20 anos, lançado em boa hora pelas mãos do Professor Antonio Coimbra e já com algumas sementes a germinar à distância, nomeadamente na Universidade de Braga. O conjunto de resultados apresentados, não sendo exaustivo, é suficientemente diverso para deixar no leitor a percepção da diversidade de caminhos que importa percorrer para esclarecer os mecanismos de processamento da dor.

Irão saber da possibilidade de manipular receptores periféricos de neurónios aferentes primários para minorar a dor, das cascatas intracelulares activadas na sinalização de eventos nociceptivos, da reorganização de circuitos neuroniais da medula espinhal quando do desenvolvimento de alodínia, da plasticidade do sistema GABAérgico talâmico na evolução para a dor crónica e dos mecanismos subjacentes à dor na diabetes.

O leitor perguntar-se-á, a propósito de muitos dos trabalhos aqui coligidos, qual a sua relevância para aquilo que motiva o seu quotidiano profissional, o alívio da dor. A resposta será em alguns casos seguramente difícil, ou, talvez melhor, pelo menos assim esperamos, adiada. É que, se em certos trabalhos de investigação lidamos já com a aplicação clínica de resultados experimentais (caso da manipulação dos receptores VR1), noutros apenas laboramos com hipóteses de trabalho que virão, eventualmente, a ter importância no tratamento da dor, enquanto noutros ainda nos limitamos a tentar responder a questões, as mais variadas, sobre o modo de funcionamento do sistema. Acreditamos, porém, que todo o esforço de compreender, por mais afastado que aparente estar de uma qualquer aplicação prática, é útil, não tanto por dar satisfação à natural ânsia de saber, mas porque todo o conhecimento acaba por, de uma forma ou outra, afectar o nosso modo de estar na vida, neste caso concreto, de tratar a dor.

Mensagem do Presidente da APED - José Manuel Castro Lopes

Tenho por hábito utilizar o número de Dezembro da revista Dor para, nesta página, fazer um balanço da actividade da APED no ano que termina.

Este ano fica marcado pelas eleições para os corpos sociais da APED. Tendo concluído um mandato em que foram atingidos praticamente todos os objectivos a que se tinha proposto, a direcção cessante, face à inexistência de candidaturas alternativas e motivada por alguns projectos inacabados ou novos, propôs-se a cumprir um segundo mandato, renovando alguns dos seus elementos. A eleição teve dois aspectos muito negativos, na minha opinião, que foram a muito baixa participação dos associados e a unanimidade da votação.

Tal não nos retira legitimidade ou afecta (muito) a motivação, mas impõe como objectivo adicional deste mandato desenvolver estratégias que levem a uma maior participação dos associados nas actividades da APED, a qual deverá existir apenas e enquanto houver associados interessados em partilhar não só os objectivos mas também as acções. Enquanto 2003 ficará na história como o ano em que a norma que equipara a dor a 5.o sinal vital foi aprovada pela Direcção Geral de Saúde (DGS), o ano de 2004 será indubitavelmente recordado como o ano em que a Competência em Medicina da Dor foi aprovada pela Ordem do Médicos.

De todas as actividades da anterior direcção da APED, estes são, de facto, os dois aspectos mais relevantes, mais consequentes e com maior impacto no futuro do combate à dor no nosso País. Mas estamos bem cientes do valor relativo que têm declarações, estatutos, normas, leis e outros «papeis». Assim, tal como temos colaborado em diversas acções de formação e sensibilização para a norma da DGS, que começam a dar os seus frutos, oferecemos já os nossos préstimos para colaborar na regulamentação da atribuição da Competência em Medicina da Dor, a qual é da exclusiva responsabilidade da Ordem dos Médicos. Mas estamos certos que a fase eleitoral que se atravessa naquela instituição irá, compreensivelmente, atrasar este processo.

Um dos marcos regulares da actividade da APED é a comemoração do Dia Nacional de Luta Contra a Dor. Era intenção da direcção de APED assinalar o 6.o Dia Nacional de Luta Contra a Dor com uma acção dedicada aos profissionais de saúde, nomeadamente um congresso que ao mesmo tempo assinalasse o fim do seu mandato. Tal não veio a ser possível devido à realização em Lisboa de um congresso europeu de Anestesiologia alguns dias antes. Por outro lado, os condicionalismos sociopolíticos que rodearam o dia 14 de Junho deste ano (dia seguinte às eleições para o Parlamento Europeu e dois dias após o início do Campeonato Europeu de Futebol) não eram propícios à organização de qualquer evento mediático semelhante à Corrida Contra a Dor realizada nos dois anos anteriores.

Assim, mantendo a ideia inicial da acção de formação, a APED associou-se à Unidade de Dor do Hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra), coordenada pela Dr.a Georgina Coucelo, na organização de uma jornada sobre dor dedicada a médicos internos, alunos do curso de medicina, enfermeiros e outros profissionais de saúde. Outras acções de comemoração chegaram ao nosso conhecimento, realizadas noutros locais do País por associados da APED, nomeadamente em Guimarães, Açores e Madeira.

O congresso da APED acabaria por se realizar em Outubro, durante a Semana Europeia Contra a Dor, em conjunto com o Clube de Anestesia Regional, pelas circunstâncias já explicadas nesta página. Os oradores convidados pela APED proferiram excelentes comunicações, de alto interesse científico, sobre temas de grande relevância para o diagnóstico e tratamento da dor. Pena foi que o número de associados da APED que estiveram presentes tenha sido tão reduzido, muito inferior ao que se verificou no último congresso da APED, realizado em Espinho em 2001.

Para além das «grandes» iniciativas, a APED continuou a apoiar diversas organizações de seus associados, manteve a participação na Comissão de Acompanhamento do Plano Nacional de Luta Contra a Dor e as suas relações com a EFIC e a IASP. A este propósito, a direcção da APED decidiu apresentar uma candidatura para que o congresso da EFIC em 2009 se realize em Lisboa. Após termos «perdido» a organização do congresso de 2006 a favor de Istanbul, por apenas 1 voto de diferença, esperamos que o próximo conselho da EFIC, a realizar em Maio de 2005, possa aprovar a nossa candidatura, em detrimento das de Oslo, Roma e Atenas.

Termino, agradecendo mais uma vez a colaboração de todos os que contribuíram para os êxitos da APED em 2004 e fazendo votos de um ano novo cheio de sucessos, pessoais, profissionais e associativos.