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A AJUDA AO DOENTE COM DOR

Director
José Manuel Castro Lopes

Director Executivo
José Manuel Caseiro

Acessora de Direcção
Ana Regalado

Conselho Científico
António Coimbra
António Palha
Aquiles Gonçalo
Armando Brito e Sá
Cardoso da Silva
Daniel Serrão
(Pe) Feytor Pinto
Gonçalves Ferreira
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João Duarte
Jorge Tavares
José Luis Portela
José Manuel Castro Lopes
Maia Miguel
Martins da Cunha
Nestor Rodrigues
Robert Martins
Walter Oswald
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Sumário

  • Editorial I - A ajuda ao doente com dor - José Manuel Caseiro - 3
  • Editorial II - Rui Miguel Rosado -4
  • Mensagem do Presidente da APED - José Manuel Castro Lopes - 5
  • Ajudar o doente com dor: bem avaliar para melhor intervir - José Manuel Rodrigues Paulo - 6
  • O médico de família e o tratamento da dor - Rui Manuel Teixeira - 9
  • A dor existe – Preconceitos sobre a dor - Paulo Moita - 13
  • Pensar a dor... - Cristina Catana - 19
  • A caminho do cuidar em enfermagem…
    … Um outro olhar à pessoa com dor -
    Maria Madalena Martins e Maria Graça Travanca - 23
  • Cuidar o doente com dor: uma breve reflexão - Sandra Jones Deodato - 29
  • Ouvir a dor - Rui Miguel Rosado 30

Editorial I - A ajuda ao doente com dor - José Manuel Caseiro

O perfume é inerente às flores, o óleo ao sésamo, o fogo à madeira,
assim como os sensatos reconhecem a alma no corpo
.
(...da sabedoria indiana)

Que significa efectivamente ajudar um doente com dor?

Poder-se-á reflectir nesta questão sem primeiro nos interrogarmos sobre quais as motivações ou o que pretendem ou desejam, efectivamente, prestadores e receptores de cuidados e de ajuda?

Rogers C, na sua obra La relation d’aide et la psycotherapie (ESF, 1985), defende que a relação entre ajudado e quem ajuda deverá assentar na confiança recíproca, e propõe que as atitudes a desenvolver deverão pautar-se pela congruência (ser verdadeiro, autêntico, ele próprio), pela atenção calorosa (o calor humano), pela compreensão empática (capacidade de perceber o mundo interior do outro e sentir as suas emoções, sem ter que necessariamente se identificar com ele) e pela permissividade (quem ajuda não deverá ser portador de atitudes morais ou julgamentos).

Aceitando esta postura, caberá ao profissional de saúde desenvolver aquelas atitudes, apostando totalmente na integração dos familiares nas equipas de cuidados.

Não deverá ser apenas a morte a constituir um acontecimento familiar ou a garantir a proximidade da família, mas sim todas as circunstâncias de doença que necessitem de cuidados sabe fazê-lo. A dor crónica é excelente exemplo dessa necessidade.

A integração dos familiares passará assim, por um lado, pela importância do doente ter ao seu lado os que lhe são próximos e, por outro, pela compreensão que os profissionais deverão ter das verdadeiras necessidades da família: esta deverá sentir-se acolhida, desejada, de forma a poder encontrar o seu verdadeiro lugar no acompanhamento do seu familiar; deverá, também, ser levada a confiar na competência e na atenção dos profissionais que cuidam do seu familiar doente, em particular no que diz respeito às respostas perante o sofrimento e a dor; deverá, ainda, ser devidamente informada sobre tratamentos, sintomas ou cuidados e consultada acerca dos hábitos e tradições familiares, antes de se iniciar qualquer novo procedimento; deverá, finalmente, ser também emocionalmente amparada, de forma a poder exprimir as suas angústias, lamentos, fraquezas, limitações e, até, fadiga.

Só assim poderão ser sintonizadas motivações e vontades de auxílio, tanto na perspectiva do prestador como na do receptor.

Só assim fará sentido utilizar a expressão “ajuda” no acto de cuidar do doente com dor.

 

Editorial II - Rui Miguel Rosado

O Plano Nacional de Luta contra a Dor define o modelo organizacional a desenvolver pelos serviços de saúde, assim como práticas adequadas relativamente ao tratamento da dor e ao reconhecimento da dor como 5º sinal vital.

Estes são contributos essenciais para o desenvolvimento de uma prática de cuidados em relação à dor e constituem novos desafios, estimulando diferentes profissionais de saúde a reflectirem sobre as implicações nas suas àreas de competência e sobre os contextos de trabalho em a divulgação do conhecimento sobre esta temática e a formação de outros profissionais.

É de salientar que os cuidados de saúde primários podem contribuir para facilitar a acessibilidade ao controlo da dor e ao consequente aumento da qualidade de vida das pessoas.

Os médicos de família e as equipas de saúde, em contacto directo com as comunidades, podem ter uma importância decisiva no tornar acessível a resposta eficaz e de qualidade a muitas situações que, de outra maneira, teriam dificuldade de resposta em cuidados mais especializados. A formação dos profissionais e a articulação favorecerão a manutenção de padrões de qualidade essenciais.

Os enfermeiros que estão em contacto continuado com a dor e o sofrimento do doente são cada vez mais estimulados a reflectir sobre as suas práticas no reconhecimento da dor, desenvolvendo um novo olhar sobre a importância de se aperfeiçoar a utilização de instrumentos de avaliação da dor. Necessitam ainda aumentar as competências relacionais para que possam interagir com a experiência de sofrimento que as pessoas vivem.

Importa, por isso, que os novos desafios nesta área estejam presentes na formação contínua dos diferentes profissionais de saúde e que tenham implicações nos currículos de formação de base dos profissionais.

Mensagem do Presidente da APED - Jose Manuel Castro Lopes

Ao reler o texto que aqui escrevi há precisamente um ano, fiquei com a sensação que 2003 tinha ficado aquém das expectativas geradas pela dinâmica criada no ano transacto.

Porque qualquer sensação, dolorosa ou não, é passível de análise, tentei comparar em termos objectivos aquilo que foi conseguido pela APED em 2002 com os resultados da nossa actividade no corrente ano.

Começando pelo Dia Nacional de Luta Contra a Dor, um marco da actividade da APED em qualquer ano, no ano passado realizámos pela primeira vez a Corrida Contra a Dor, com a participação de cerca de 100 pessoas e uma projecção mediática muito boa.

Este ano repetimos a corrida, desta vez no Porto e com mais de 400 participantes, que resultou numa repercussão nos órgãos de comunicação social ligeiramente inferior (pois é, foi no Porto...), mas muito significativa. Acresce que as comemorações não se limitaram à corrida. Aproveitando o facto de o 1º Curso de Pós-Graduação em Medicina da Dor da Faculdade de Medicina do Porto encerrar nesse dia com uma conferência do Prof. Harald Breivik, presidente da EFIC, realizámos uma cerimónia conjunta para a qual convidámos diversas individualidades, incluindo o senhor ministro da Saúde, na expectativa de que ele pudesse anunciar nessa data a tão esperada norma que equipara a dor a 5º sinal vital. Não pôde comparecer o senhor ministro mas veio a norma, e foi com grande júbilo que terminámos o dia com um recital da pianista Tânia Achot subordinado ao tema “A dor e o sofrimento na música”.

No final do ano passado realizaram-se as sessões de sensibilização do Plano Nacional de Luta Contra a Dor (PNLCD), com a participação da APED. Dado o insucesso relativo dessas sessões, que visavam criar uma dinâmica das bases para as cúpulas com vista à criação de unidades de dor, decidiu a Comissão de Acompanhamento do PNLCD alterar a sua estratégia.

Assim, promoveu-se este ano um inquérito, que visa actualizar os dados de 1999 relativos às características das unidades de dor existentes no nosso País, e planificar uma metodologia objectiva de criação de novas unidades e apoio ao desenvolvimento das unidades já existentes.

O papel da APED, enquanto instituição, foi menor neste aspecto particular, mas vários membros dos seus corpos sociais mantêm-se a trabalhar empenhadamente na Comissão de Acompanhamento do PNLCD, para que os objectivos e metas nele traçados sejam cabalmente atingidos. Não se pense, no entanto, que o trabalho da Comissão se limita ao estritamente consignado no PNLCD.

A aprovação da norma que equipara a dor a 5º sinal vital é um excelente exemplo do resultado do trabalho da comissão em áreas em que o plano é omisso. No mesmo sentido, a APED apoiou igualmente a Comissão de Acompanhamento ao promover no Porto uma reunião, para que foram convidados todos os coordenadores de unidades de dor, que teve como objectivo aprovar uma proposta de revisão e actualização dos GDH relativos aos procedimentos efectuados nas unidades de dor crónica.

De facto, verifica-se que muitos dos procedimentos não estão enquadrados nas actuais listagens, ou estão dispersos por diversas secções, o que torna praticamente impossível quantificar com algum rigor o trabalho realizado nas unidades de dor crónica, tarefa fundamental face às novas regras de gestão implementadas nos hospitais S.A. Refira-se que numa portaria deste ano, que fixa os preços a praticar pelo Serviço Nacional de Saúde, estão apenas descritos 12 procedimentos de terapia da dor crónica, incluídos na tabela de anestesia.

Ainda por solicitação da Comissão de Acompanhamento, e com vista à alteração das regras de comparticipação dos opióides, a APED solicitou às suas congéneres europeias dados sobre as regras nacionais neste âmbito.

Conforme presumíamos, verificou-se que na generalidade dos países europeus o custo dos opióides para os doentes é nulo, ou substancialmente inferior ao praticado no nosso País.

A comemoração da Semana Europeia Contra a Dor foi assinalada no ano passado pela tradução e publicação do folheto da EFIC destinado aos doentes com dor crónica. Neste ano, e na sequência da aprovação da norma já referida, a APED colaborou na realização de um colóquio sobre a “Importância da enfermagem na abordagem da dor”.

Organizado pela Direcção Geral de Saúde no Hospital Júlio de Matos, o colóquio tinha como objectivo principal sensibilizar a classe profissional mais importante para a correcta implementação da norma.

Num anfiteatro repleto, foi gratificante verificar o empenho dos profissionais presentes, e a vontade expressa de colaboração. Nesse mesmo dia, a APED realizou uma conferência de imprensa na sede da Ordem dos Médicos, alusiva à Semana Europeia Contra a Dor Ainda no âmbito da enfermagem, realizámos em 2002 o 1º Curso APED de Enfermagem em Dor, e planeávamos organizar um outro em 2003.

Afinal, contingências várias impuseram adiamentos sucessivos dos cursos planeados, estando neste momento prevista a realização de três cursos, em Lisboa, Coimbra e no Porto, em Janeiro de 2004.

Decorreu em 2002, com o êxito que todos reconhecemos, o 1º Encontro das Clínicas de Dor da Revista Dor.

Não tivemos este ano nenhuma iniciativa semelhante, mas a APED, à semelhança do ano transacto, deu o seu patrocínio científico e/ou apoio a diversas reuniões científicas organizadas pelos seus associados ou pela indústria farmacêutica.

Para além disso, o presidente da APED esteve activamente envolvido na organização do congresso da EFIC, Pain in Europe IV, tanto na qualidade de tesoureiro honorário da EFIC como na de membro da Comissão Científica. É de salientar, a este propósito, que em nenhum outro congresso da EFIC houve uma tão elevada participação de associados da APED no programa científico.

O presidente da APED participou ainda na Reunião das Sociedades Ibero-Americanas para o Estudo da Dor.

Foi decidido, no ano passado, propor à Ordem dos Médicos a criação da Competência em Medicina da Dor. Depois de demoradas conversações com outras 7 sociedades científicas (as Sociedades Portuguesas de Anestesiologia, Medicina Física e de Reabilitação, Neurocirurgia, Neurologia, Oncologia, Ortopedia e Traumatologia e Reumatologia) foi apresentada uma proposta conjunta ao senhor bastonário em Maio último.

Esperávamos que uma proposta tão consensual, e que obteve de imediato o acordo implícito do senhor bastonário, fosse rapidamente aprovada sem oposição significativa. Erro de avaliação, distracção momentânea, ingenuidade, incompetência da nossa parte, ou então incompreensão de quem a avaliou, fizeram com que a proposta não fosse aprovada numa primeira fase, por razões que ainda não nos foram comunicadas oficialmente.

No entanto, encetámos de imediato diligências no sentido de a proposta ser reapreciada, e estamos firmemente convictos de que a força da razão se irá sobrepor a quaisquer outras “forças”.

Por último, o número de novos associados que se inscreveram na APED em 2003 foi o dobro daqueles que se inscreveram em 2002, tendo a APED neste momento 240 sócios. Foi também criada, no corrente ano, a página da APED na Internet (em www.aped-dor.org), um embrião que pretendemos se desenvolva à medida do interesse de quem a visita e das nossas disponibilidades.

Em resumo, 2003 foi objectivamente mais um ano de evolução positiva para a APED. Porquê então aquela sensação de expectativas frustradas? Penso que existe uma razão circunstancial e uma razão de fundo. A primeira decorre da negação daquilo que para nós era praticamente um dado adquirido: a criação da Competência em Medicina da Dor.

A segunda resulta da insatisfação permanente de quem percebe que ainda há tanto caminho para andar, tantos obstáculos para ultrapassar e tão poucos recursos materiais e humanos para ajudar a atingir a utopia da meta.

Termino, tal como há um ano atrás, agradecendo a colaboração de todos aqueles que contribuíram para os sucessos que conseguimos alcançar durante o corrente ano, e fazendo votos para que o ano que agora se vai iniciar seja ainda melhor do que 2003, para a APED, seus associados e patrocinadores.