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OS ENFERMEIROS E A DOR NA CRIANÇA
Autor:
Luís Manuel Cunha Batalha
(Vencedor do 2º prémio Grunenthal-DOR 2002)

Director
José Manuel Castro Lopes

Director Executivo
José Manuel Caseiro

Acessora de Direcção
Ana Regalado

Conselho Científico
António Coimbra, António Palha, Aquiles Gonçalo, Armando Brito e Sá, Cardoso da Silva, Daniel Serrão, (Pe) Feytor Pinto, Gonçalves Ferreira, Helder Camelo, João Duarte, Jorge Tavares, José Luis Portela, José Manuel Castro Lopes, Maia Miguel, Martins da Cunha, Nestor Rodrigues, Robert Martins, Walter Oswald, Zeferino Bastos


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Sumário

  • Editorial - José Manuel Caseiro - 3
  • Mensagem do Presidente da APED - José Manuel Castro Lopes - 4
  • Introdução - 6
  • PARTE I – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
    • Capítulo I – A experiência dolorosa na criança – 6
      1. O Significado da dor/sofrimento - 8
      2. Neurofisiologia da dor - 9
        1. Teorias da dor - 10
      3. Factores que influenciam a dor - 12
      4. Respostas à dor - 15
      5. Avaliação da dor - 16
    • Capítulo II – A expressão do cuidado à criança com dor e sua família - 18
      1. Teorias de suporte no cuidar - 18
      2. Intervenção farmacológica - 19
      3. Intervenção não farmacológica - 21
  • PARTE II – INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA
    • Capítulo III – Metodologia - 24
      1. Tipo de investigação - 24
      2. População - 25
      3. Pergunta de partida - 25
      4. Variáveis e sua operacionalização - 25
      5. Instrumento de colheita de dados - 25
      6. Procedimentos utilizados na colheita dos dados - 27
      7. Tratamento estatístico - 27
    • Capítulo IV – Apresentação e análise dos dados - 28
      1. Caracterização da população, autoavaliação e saberes e práticas de cuidados - 28
      2. Variáveis sociodemográficas, autoavaliação e saberes e práticas de cuidados - 29
    • Capítulo V – Discussão – 30
      1. Discussão dos resultados - 30
  • Conclusões - 33
  • Bibliografia - 35
  • Anexos – 37

Editorial - 2003: O 15º aniversário das Unidades de Dor Aguda - José Manuel Caseiro

Enquanto americanos (B. Ready) e alemães (C. Maier) disputam a paternidade das Unidades de Dor Aguda, já que ambos, em 1988, defenderam esse conceito organizacional para a analgesia pós-operatória, interrogamo-nos porque motivo não se conseguirá, em Portugal, que a ideia vingue e seja, mais do que apadrinhada por alguns, verdadeiramente exigida por todos.

Várias razões têm sido apontadas, como a insensibilidade de quem gere e administra a saúde, a falta de interesse dos cirurgiões que verão nesse tipo de organização uma “invasão” do pós-operatório dos “seus” doentes e até a falta de exigência destes na obtenção de uma boa analgesia.

Mas se quisermos ser honestos, não poderemos deixar de acusar, também, os próprios anestesistas que, gostando muito de discutir o tema e de teorizar sobre ele, acabam por ser sempre (ou quase sempre) os primeiros a não cumprir com rigor o papel que lhes deve caber no alívio da dor cirúrgica.

A obrigatoriedade de seguir o pós-operatório imediato, faz parte das exigências profissionais do anestesiologista, independentemente de se encontrar ou não organizada essa tarefa no serviço em que cada um esteja inserido. Não é o facto de se estruturar um programa organizacional de analgesia do pós-operatório que, por si só, levará a que aqueles que, por norma, abdicam de cumprir essa obrigação o passem a fazer.

Mais preocupante ainda, é que não o fazendo, também não se sintam mínimamente incomodados por isso, desvalorizando, por conveniência própria, essa missão e assistindo à sua volta a idêntica reacção em cadeia: os cirurgiões não reclamam, os superiores hierárquicos não os chamam à atenção, os doentes não protestam (ou se o fazem, vai-se-lhes dizendo que têm que ter paciência, quando não os rotulam mesmo de piegas) e as administrações desconhecem ou ignoram o que se vais passando – até hoje, que eu tenha conhecimento, não houve um só exemplo no nosso País em que a iniciativa de uma Unidade de Dor Aguda tenha partido de um órgão administrativo.

Há manifestamente um défice de importância e de prioridade no combate à dor em Portugal e, particularmente, à dor do pós-operatório, que para a generalidade das mentalidades –profissionais de saúde assumidamente incluídos– não passa de uma fatalidade: “foi operado, tem que doer”!

É cultural, dirão alguns. É cómodo, afirmo eu. Pergunto-me muitas vezes o que pensará de si próprio um anestesista que, no dia seguinte ao de ter anestesiado um doente, não o vai visitar.

Achará normal? Entenderá que não lhe compete? Confiará completamente na preparação do cirurgião, no que diz respeito aos fármacos e técnicas analgésicas? Sentir-se-á realizado como clínico e, particularmente como anestesista? Será isso que pretende que lhe aconteça quando um dia tiver que ser operado? Ser-lhe-á absolutamente indiferente? E se for o seu filho?

Vejo, desanimado, que não têm sido evidentes os progressos nesta área e que aqueles que mais têm dado de si próprios por esta causa, não têm sido tão bem sucedidos como desejavam ou pensaríam que podiam ser.

Pelo caminho, vão sendo rotulados de fundamentalistas da analgesia e ganhando forças para manterem o combate contra a incompreensão e o imobilismo que, nos tempos que correm, poderão vir a ter mais um fortíssimo aliado: as SA.

Prevejo que apenas reste aos nossos doentes, durante este ano de 2003, o lastimarem-se por serem portugueses e, sem alternativa, aproveitarem a celebração dos 15 anos de existência internacional das Unidades de Dor Aguda para, nos seus pós-operatórios, cantarem o “parabéns a você”.

Mensagem do Presidente da APED - José Manuel Castro Lopes

Este número da Revista Dor contem o trabalho galardoado com o 2º Prémio DOR 2002 atribuído pela Fundação Grünenthal. Trata-se de um trabalho realizado por um professor da Escola Superior de Enfermagem Bissaya Barreto, em Coimbra, que tem dedicado grande parte da sua experiência profissional à enfermagem pediátrica.

Não é este o local nem o momento para me pronunciar sobre as virtudes, os méritos ou os defeitos do trabalho em causa, até porque tive oportunidade de o fazer durante a reunião do júri que avaliou todos trabalhos que se candidataram ao referido prémio. Gostaria sim, de salientar o facto de o autor ser um profissional de enfermagem, de outro profissional de enfermagem ser autor de um trabalho galardoado com uma Menção Honrosa, e de 40% dos trabalhos a concurso serem assinados por enfermeiros.

O papel dos profissionais de enfermagem no combate à dor é reconhecidamente fundamental.

A APED assim o entende, e a demonstrá-lo está o elevado número de enfermeiros associados da APED, e o facto de um dos elementos da Direcção ser igualmente um enfermeiro.

A International Association for the Study of Pain (IASP) publicou um currículo específico para aqueles profissionais de saúde, que assenta nos seguintes princípios:

  1. A dor deve ser encarada como uma experiência multidimensional que tem muitos componentes para além da nocicepção, incluindo componentes sensoriais, emocionais, cognitivos, de desenvolvimento, comportamentais e culturais, e todos eles podem influenciar a percepção da dor e consequente resposta.
  2. A dor deve ser avaliada regularmente de forma adequada e sistemática, e esta avaliação deve ser considerada como parte integrante do tratamento.
  3. A avaliação e tratamento da dor, parte integrante dos cuidados de enfermagem, tem que ser contínua e envolver o paciente.
  4. A avaliação e tratamento da dor deve ser registada de forma facilmente acessível e claramente visível; a avaliação da dor serve de guia para a terapêutica e não deve ser considerada uma finalidade por si só.

A dor é um sintoma que acompanha de forma transversal a grande maioria das situações patológicas que requerem cuidados de saúde. O controlo eficaz da dor é um dever de todos os profissionais empenhados na prestação desses cuidados, e um direito dos doentes que dela padecem.

Assim, a Comissão de Acompanhamento do Plano Nacional de Luta Contra a Dor decidiu submeter ao Senhor Alto Comissário para a Saúde, de quem depende, um documento que propõe a elaboração de uma norma, a enviar a todas as Unidades de Saúde, tornando obrigatório o registo da intensidade da dor nas folhas do processo clínico.

Esse registo deverá ser efectuado a par com os 4 sinais vitais “clássicos”, tornando-se assim a dor no 5º sinal vital. Trata-se de um passo fundamental para a melhoria dos cuidados analgésicos, especialmente mas não exclusivamente no período pós-operatório, que facilitará a criação de Unidades de Dor Aguda Pós-Operatória, proporcionará a diminuição da incidência e morbilidade de algumas complicações associadas a certas patologias, e contribuirá decisivamente para a indispensável humanização das Unidades de Saúde.

Embora o papel dos enfermeiros no combate à dor não esteja de modo algum restrito à sua avaliação, é óbvio que sem estes profissionais não será possível atingir o objectivo de transformar a dor no 5º sinal vital. Estou absolutamente convicto de que a sua colaboração será imediata, tendo em vista o interesse dos doentes.

Mas não basta querer, é necessário também saber. Do inquérito realizado pela APED às Escolas de Enfermagem ressaltou a ideia de que o ensino da dor é bem mais “acarinhado” nessas escolas do que nas Faculdades de Medicina ou Medicina Dentária. Apesar disso, a APED decidiu dar o seu contributo, e irá organizar durante o corrente ano três cursos de dor para enfermagem, à semelhança do realizado em Almada no ano transacto, que decorrerão em Lisboa, Coimbra e Porto, sob a coordenação geral do Enfº Rui Rosado e com o apoio da Grünenthal.

Faço votos de que estes cursos sejam um sucesso, tanto no que respeita ao seu conteúdo científico como ao número de participantes, ficando aqui a promessa de que, caso esses objectivos sejam atingidos, mais se realizarão num futuro próximo e, eventualmente, noutros locais do País.