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DOR E PSIQUIATRIA
Editor convidado: Dr. Arantes Gonçalves

Director
José Manuel Castro Lopes

Director Executivo
José Manuel Caseiro

Acessora de Direcção
Ana Regalado

Conselho Científico
António Coimbra, António Palha, Aquiles Gonçalo, Armando Brito e Sá, Cardoso da Silva, Daniel Serrão, (Pe) Feytor Pinto, Gonçalves Ferreira, Helder Camelo, João Duarte, Jorge Tavares, José Luis Portela, José Manuel Castro Lopes, Maia Miguel, Martins da Cunha, Nestor Rodrigues, Robert Martins, Walter Oswald, Zeferino Bastos


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SUMÁRIO

  • Editorial - José Manuel Caseiro - A Especialidade de Medicina da Dor - 3
  • Mensagem do Presidente da APED  - José Manuel Castro Lopes - 4
  • Aspectos Psicológicos da Dor CrónicaArantes Gonçalves - 5
  • Intervenção Psicológica: Possibilidades de Colaboração entre Distintos Campos Científicos na Dor Crónica - Vera Araújo-Soares, Teresa McIntyre, Margarida Figueiredo - 10
  • Um Olhar (breve) Sobre a Dor Mental - Adelino Vale Ferreira - 20
  • Dor e Patologia Psiquiátrica - Arantes Gonçalves - 25
  • Dor Crónica: Uso de Técnicas de Relaxamento no seu Controle - Fátima Magalhães, Sónia Ramos - 30
  • Parece que engoli a gripeTiago Gama - 34
  • Douleur et Psichosomatique - Sylvie Cady - 36

Editorial - A Especialidade de Medicina da Dor - José Manuel Caseiro

Foi René Leriche, um neurocirurgião que todos olham como o verdadeiro pai da moderna Terapêutica da Dor que, em 1937, pela primeira vez, reconheceu ser a Dor “muito mais uma doença do que um sintoma”.

No pós-guerra, em meados do século XX, John Bonica, anestesiologista, fazendo a ponte entre o sintoma e a doença, não só recuperou aquela verdade como lhe acrescentou a ideia de se tratar de uma complexa experiência  humana, enfatizando os aspectos psicológicos e introduzindo o pioneiro modelo de abordagem multidisciplinar.

E se esta multidisciplinaridade foi o terreno – e continuará a ser por muitos mais anos – de todo o desenvolvimento das Unidades de Dor, ela despertou também, junto de algumas especialidades médicas, como a anestesiologia, a neurologia, a neurocirurgia, a psicologia, a medicina física e outras, o interesse por este campo da medicina, tendo todas elas estado na base da prática clínica, da investigação, da educação e do desenvolvimento organizacional da Terapêutica da Dor.

O enorme contributo que este envolvimento deu ao desenvolvimento dos modelos de abordagem da Dor até aos nossos dias, veio no entanto gerar um embaraçante sentimento de propriedade do conhecimento na àrea da Dor,  conduzindo a um clima de luta pela sua inclusão no seio das referidas especialidades.

Com que direito? Será a Dor pertença dos anestesistas, dos neurologistas, dos neurocirurgiões ou de outra qualquer especialidade? Porquê, com que direito e com que fundamento?

Citando Philipp Lippe, Executive Medical Director da American Academy of Pain Medicine e Executive Vice-President do American Board of Pain Medicine, “se é certo que o conhecimento da Dor, encerra hoje, na sua origem,  contributos de diversas especialidades, também não é menos verdade que enquanto especialidade ela tem uma alma, uma essência, que é única e distinta de todas as outras especialidades. O todo é aqui maior que a soma das partes”.

O que se passa é que hoje todos reconhecem a necessidade da Dor se começar a aprender nas Faculdades e haver capacidade de treino na vida clínica para se poderem formar peritos na sua abordagem. É necessário haver quem investigue, quem ensine e quem trate.

E é aqui que, verdadeiramente, nasce a problemática da Medicina da Dor enquanto especialidade, sendo o momento crucial: qualquer erro cometido hoje, determinará um caminho errado e sem destino.

Se aceitarmos todos, humildemente, que a Dor não pertence especificamente a nenhuma especialidade das já existentes, mas constitui, isso sim, uma área de competência com capacidade para um desenvolvimento próprio, gerando condições únicas para o ensino, a investigação e o treino, poderemos assumir desde já a necessidade de ela se tornar uma especialidade e trabalharmos na concepção de um caminho firme e seguro, embora sereno e sem disputas de paternidade, para atingirmos aquele desiderato.

O percurso não será fácil, mas determinando metas e etapas como a definição e a criação de uma competência, programas curriculares realistas e o obrigatório desenvolvimento de mais Unidades de Dor, poderemos, dentro de alguns anos contar com um conjunto de clínicos possuidores da dita competência e apetrechados para organizar, em definitivo, a especialidade de Medicina da Dor.

Fica óbvio que o que estou aqui a defender implica a decisão inabalável de não caminhar para aquilo que considero o mais perigoso dos caminhos: a subespecialidade.

Esse seria o terreno adequado para as hostilidades, para a defesa da Dor como propriedade de algumas especialidades e para as tentativas de projectos de liderança de um processo que deverá ter em todos os interessados colaboradores empenhados, independentemente da área de conhecimento de onde provenham.

Em 2002, há ainda quem tenha dificuldade em aceitar e assumir as posturas de Leriche e Bonica, mas também não falta quem não desista de continuar a batalhar pelo prosseguimento firme de uma estratégia que conduza à especialidade da Medicina da Dor.

Voltarei a este tema.

Mensagem do Presidente da APED

Por iniciativa do Director Geral e Alto Comissário da Saúde, Prof. Pereira Miguel, foi criada muito recentemente uma Comissão de Acompanhamento do Plano Nacional de Luta Contra a Dor. Esta comissão, que funcionará na dependência directa do Alto Comissário da Saúde, será coordenada pelo Presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor, e integrará o Director do Instituto de Qualidade em Saúde, os Presidentes das cinco Administrações Regionais de Saúde

do continente, um representante de cada um dos governos regionais das Regiões Autónomas da Madeira e Açores, e quatro representantes de serviços da Direcção Geral de Saúde.

Com um mandato de dois anos, as funções principais da comissão serão a promoção, monitorização e avaliação do desenvolvimento e operacionalização do Plano Nacional de Luta Contra a Dor, bem como a criação de suportes técnicos necessários à introdução de boas práticas profissionais na área da Dor.

Apesar do período de indefinição política que atravessamos actualmente, e sabendo que, mesmo em condições ideais, a criação de uma comissão por vezes não significa mais do que conjugar um grupo de pessoas eivadas das melhores intenções mas limitadas nas suas competências, creio que foi dado um sinal muito positivo do empenho das entidades governamentais em atingir os objectivos delineados no Plano Nacional de Luta Contra a Dor.

O renovado envolvimento da APED fará com que, independentemente do governo que se venha a formar após as eleições de 17 de Março, haja uma voz empenhada em não permitir que caia no esquecimento o resultado de um trabalho técnico e político muito árduo, cuja implementação é inquestionavelmente fundamental para uma melhoria significativa da assistência médica no âmbito da Dor no nosso País.

Por outro lado, o Presidente da European Federation of IASP Chapters (EFIC), Prof. David Niv, lançou recentemente a discussão sobre a eventual criação a nível Europeu, de um grau de diferenciação médica em Medicina da Dor.

Trata-se de um assunto polémico e de difícil concretização dadas as diferenças existentes entre os vários países Europeus. Questões como as condições de acesso ao programa de formação, o currículo teórico mínimo, o tipo e duração do treino clínico, a entidade concessora do grau e o tipo de grau a conceder, estão longe de ser consensuais em vários países, pelo que uma harmonização europeia, se bem que desejável, não será seguramente atingida num curto espaço de tempo.

Em Portugal, a APED relançou esta discussão durante a sessão de comemoração do 3º Dia Nacional de Luta Contra a Dor, em 14 de Junho de 2001 em Espinho, num debate que contou com a presença de representantes da APED, da Ordem dos Médicos, e das Sociedades Portuguesas de Anestesiologia, Medicina Física e de Reabilitação, Neurologia e Reumatologia.

Já em Janeiro deste ano, tive oportunidade de participar numa mesa sobre o mesmo assunto, durante a sessão de abertura das Jornadas de Dor do Hospital Garcia de Orta. Das discussões havidas nessas ocasiões, e de conversas mais informais que tenho tido com vários colegas, ressaltam, na minha opinião, dois aspectos fundamentais: por um lado, parece ser quase consensual a necessidade da criação de uma graduação em Medicina da Dor ou Algologia no nosso País; por outro lado, não há consenso quanto ao tipo de grau a criar, havendo opiniões divergentes entre as várias sociedades científicas e no próprio seio da APED (a este propósito, ver o editorial do Dr. José Manuel Caseiro).

Nesse sentido, a Direcção da APED decidiu solicitar a convocação de uma Assembleia Geral da APED para discutir especificamente este assunto, e votar aquela que passará a ser a posição oficial da APED. Esperando que este número da revista seja entregue em tempo útil, aqui deixo o meu apelo a todos os sócios da APED para que participem activamente na discussão e votação que terá lugar no dia 16 de Março às 14.30 horas na biblioteca do Serviço de Anestesiologia do Hospital Universitário de Coimbra. Em qualquer organização democrática, a opinião da maioria prevalece, embora com todo o respeito, sobre a opinião das minorias.

Para que a sua opinião conte, compareça!