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Director da revista
Sílvia Vaz Serra

Editores
Cristina Catana
Graça Mesquita
Ricardo Pestana
Rosário Alonso

Súmario

Editorial 3
Papel da Radiofrequência Pulsada por Agulha
no Tratamento da Síndrome do Nervo Cluneal 5 Neuropsicologia no Âmbito da Dor Crónica 11
Construção e Reconstrução da Imagem Corporal no Paciente com Dor 13
Ar on Pain – is it all in the Mind? 18 Pain.
Is it All in the Mind? 21
Estudo da Prescrição de Anti-Inflamatórios Não-Esteróides (AINEs) numa USCP do Centro de Portugal, Baseado na Norma
DGS 013/2011 e nos Princípios Orientadores do Euromedstat: Ciclo de Garantia de Qualidade 26
Papel da Dor no Diagnóstico Diferencial entre Plexopatia Radiógena e Plexopatia Maligna: Caso Clínico e Revisão Bibliográfica 30
Estratégias de Mindfulness na Abordagem do Doente com Dor Crónica 34

Editorial - Sílvia Vaz Serra

 «O que é o presente?
É uma coisa relativa ao passado e ao futuro. É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.
Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema. Não quero pensar nas coisas como presentes; quero pensar nelas como coisas.
Não quero separá-las de si próprias, tratando-as por presentes....»
Mesmo socorrendo-me das palavras expressas no poema de Alberto Caeiro não posso deixar de pedir desculpa a todos os nossos leitores por este tempo distendido, sem notícias e sem aparente explicação. Poderei dizer: por vezes há situações que nos transcendem... mas, vamos ao que interessa que já se faz tarde!
Este é um volume verdadeiramente multidisciplinar, holístico.
A dor lombar pode ser atribuída a diversas etiologias e o encarceramento do nervo cuneal superior pode ser uma das causas, quantas ve- zes subestimada. É esta realidade que é abordada neste primeiro artigo: revisão da anatomia, do diagnóstico (essencialmente clínico mas também confirmado por ultrassonografia) e tratamentos. Neste excelente artigo é apresentado o resultado de um estudo retrospetivo realizado na Unidade de Medicina da Dor do Hospital Pedro Hispano, no qual foi feito a revisão de todos os doentes com síndrome do nervo cuneal superior tratados com radiofrequência (RF) pulsada por agulha. Com este estudo pretende-se identificar a relevância e eficácia deste tratamento nesta patologia específica, tendo em conta os benefícios da RF pulsada demonstrados noutras neuropatias. Um caminho a percorrer e a prosseguir.
O artigo seguinte aborda a psiconeuroimunidade: área da psicologia que estuda a influência dos fatores biopsicossociais, o stress, a depres- são e o seu impacto no sistema imunitário - extremamente atual! É realçada a importância da identificação e perceção dos declínios cognitivos resultantes do desgaste neuronal e a consequente repercussão nas três principais áreas: memória, psicomotora e funções executivas. Refere que os estudos sugerem que a dor crónica deve ser considerada uma doença neuro- degenerativa. Enfatiza a importância das estratégias de coping no trabalho multidisciplinar, essenciais para uma melhoria da qualidade e expetativa de vida.
O texto que se segue – muito inovador – é uma reflexão sobre o conceito de imagem corporal. É percorrido um caminho entre a construção, desconstrução e reconstrução da imagem corporal na dor crónica. O corpo considerado como problema (na patologia) mas pode ser, ele próprio, peça fundamental da solução. Não levanto mais o véu...estou certa que será lido com muita atenção.
O evento «Pain - is it all in the mind?», organizado pela iniciativa de comunicação de ciência «Ar|Respire connosco» da Fundação Champalimaud, propôs mostrar a importância da investigação clínica na área da dor e envolver a sociedade/público em geral num diálogo ativo com especialistas na área da dor. Javier Moscoso, professor e investigador de história e filosofia comunicou o seu trabalho sobre as perspetivas históricas e culturais da dor e Vania Akparian, neurocientista, partilhou o seu mais recente trabalho na área da dor crónica. O presente artigo propõe uma revisão do evento e das principais conclusões extraídas do mesmo – vai querer saber.
O artigo seguinte (em inglês) explana um dos temas que foi «conversado» no evento da Fundação Champalimaud. O «processo dor» é abordado de uma forma extremamente interessante, lançando várias interrogações: dor ou dores? Pain in the mind? Pain in the brain? À visão dicotómica contrapõe-se uma visão holística da dor, integrando não só a ciência médica mas também as humanidades e as ciências sociais. A dor está no outro? Agucei a curiosidade?
O próximo texto aborda um tema extremamente importante na práctica clínica: os anti-inflamatórios não-esteroides (AINE). São conhecidos os riscos gastrointestinais e cardiovasculares destes fármacos. A Direcção Geral de Saúde elaborou uma norma de prescrição dos AINE tendo em conta a existência de patologia cardiovascular ou gastrointestinal. Neste trabalho é avaliada a prescrição de AINE numa unidade de cuidados de saúde, personalizados em diferentes períodos e comparada, nos mesmos tempos, a porcentagem de prescrição de cada um destes AINE. São sugeridos caminhos para trabalhos futuros - fundamental para que se avance.
Neste artigo os autores apresentam uma revisão bibliográfica sobre o diagnóstico de plexopatia radiógena e de causa maligna (provocada por invasão ou compressão do plexo). Um caso clínico é descrito com o objetivo de salientar as dificuldades que podem surgir no diagnóstico
diferencial destas duas entidades, o qual é de extrema importância uma vez que condiciona uma diferente abordagem terapêutica e um diferente prognóstico. É realçada a importância de ouvir o doente e valorizado o papel da dor como orientador clínico neste diagnóstico diferencial já que, pelo menos numa fase inicial, os exames imagiológicos podem não mostrar alterações significativas e até em 10% dos doentes não mostram alterações após seis meses do início da sintomatologia.
Neste trabalho aborda-se um tema atualíssimo (e utilizo o superlativo, sem medo): estratégias de mindfulness. As estratégias de mindfulness parecem ser promissoras na abordagem do doente com dor crónica, não apenas pela sua ação direta sobre a intensidade da dor, reduzindo o consumo de opióides mas também pelo seu papel na otimização de algumas comorbilidades como a diabetes, doenças cardiovasculares, na redução do stress, depressão, insónias e na interferência com as atividades da vida diárias. A autora deixa também várias sugestões muito pertinentes: realização de um estudo nacional para quantificar a utilização desta abordagem no tratamento da dor em Portugal; o desenvolvimento de um programa de formação e sensibilização dos profissionais de saúde para a importância das técnicas de mindfulness na abordagem do doente com dor crónica; a análise dos principais outcomes com instrumentos adequados de forma a comparar o seu custo e a quantificar comparativamente a resposta aos métodos utilizados; o desenvolvimento de normas de orientação clínica para a utilização destas estratégias na abordagem da dor crónica, de acordo com o tipo de dor e as características de cada doente como modo de seleção dos candidatos a esta técnica.
Termino, sem mais delongas, com um verso «Ao rosto vulgar dos dias» de Alexandre O'Neill.
Até breve.
«O que é o presente?
É uma coisa relativa ao passado e ao futuro. É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.
Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema. Não quero pensar nas coisas como presentes; quero pensar nelas como coisas.
Não quero separá-las de si próprias, tratando-as por presentes».
«Monstros e homens lado a lado,
Não há margem, mas na própria vida.
Absurdos monstros que circulam Quase honestamente.
Homens atormentados, divididos, fracos. Homens fortes, unidos, temperados.
Ao rosto vulgar dos dias,
À vida cada vez mais corrente,
As imagens regressam já experimentadas, Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.
Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.»