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Director da revista
Sílvia Vaz Serra

Editores
Armanda Gomes
Ananda Fernandes
Graça Mesquita

Súmario

  • Mensagem do Presidente da APED - Duarte Correia - 3
  • Editorial - Sílvia Vaz Serra - 5
  • Abordagem Psicofarmacológica da Dor Crónica - Paula Garrido e Carla Silva - 6
  • Papel da Noradrenalina na Facilitação da Dor Crónica no Encéfalo - Isabel Martins, Deolinda Lima e Isaura Tavares - 18
  • Dor e Exercício na Osteoartrose - Margarida Espanha - 28
  • A Certificação de Uma Unidade de Dor - Maria Carlos Cativo - 37

Editorial - Sílvia Vaz Serra

Este volume tem poucos artigos, é certo, mas plenos de interesse, interesse esse que se cruza com a importância do momento que vivemos, com o impacto que a atual situação do país reflete em cada um de nós e, em especial, nos doentes com dor crónica. Confuso, ambíguo este preâmbulo… como a realidade. Neste número, salienta-se a pertinência dos estudos de ciências básicas. É realçada a importância da noradrenalina enquanto agente modulador em centros de controlo endógeno da dor. A analgesia sustentada, obtida através da manipulação seletiva dos aferentes noradrenérgicos por um vetor vírico, mostra que as abordagens de terapiagénica devem ser equacionadas no tratamento da dor crónica. Sublinha-se que estes vetores já estão a ser usados em ensaios clínicos para o tratamento da dor oncológica, e já se revelaram seguros e eficazes, após administração encefálica, no caso de doenças neurodegenerativas, o que abre caminho, portas para a individualização do tratamento. «Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia».

Mia Couto «Cada homem é uma raça». Num país deprimido, em que o consumo de antidepressivos e ansiolíticos não cessa de aumentar, acresce que a dor é um sintoma frequente em doentes com perturbações mentais e psicofisiológicas, em particular em doentes com depressão e ansiedade. Nos quadros de dor crónica, a prevalência de comorbilidade psiquiátrica é também elevada o que, por vezes, torna difícil destrinçar a relação causal e cronológica entre dor crónica e psicopatologia. Só uma visão integrada da dor crónica construída com o doente, uma deteção precoce de psicopatologia e uma otimização do tratamento psiquiátrico (com uma abordagem multidisciplinar e multidimensional), pode proporcionar ganhos em termos de qualidade de vida. «História de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens.

Agora, quando desembrulho minhas lembranças, eu aprendo meus muitos idiomas. Nem assim me entendo. Porque quando me descubro, eu mesmo me anoiteço, fosse haver coisas só visíveis em plena cegueira». Mia Couto «Cada homem é uma raça». A nossa população está envelhecida e com excesso de peso o que transforma a osteoartrose na patologia mais prevalente entre as doenças reumatismais. A incapacidade e perda de função resultantes são responsáveis pela reduzida qualidade de vida destes doentes e elevado encargo para o sistema de saúde. Neste pertinente artigo, é caracterizada esta patologia e o seu principal sintoma – a dor, elucidando acerca das suas causas e consequências, e descreve as diferentes modalidades de tratamento desta doença, com enfoque numa das modalidades não farmacológicas recomendada – o exercício físico.

O tipo de exercício apropriado e a dose certa resultará em benefícios, ao promover o aumento da autonomia funcional e a melhoria da qualidade de vida – fim último de qualquer abordagem terapêutica. Por último, mas poderia ser o primeiro, num excelente artigo é explanada a importância da melhoria contínua de serviços e a necessidade, cada vez mais premente, em certificar e garantir a qualidade dos serviços prestados nos serviços clínicos. A Unidade de Dor Crónica do Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga foi pioneira na certificação de uma unidade de dor crónica. O caminho da exigência e da qualidade do nosso trabalho torna-se uma questão de sobrevivência. É processo no qual tem de se aliar uma boa prestação de serviços, uma correta gestão de recursos, uma otimização dos gastos à satisfação dos utentes, cuidadores e dos colaboradores.

Uma aposta ganha, como se demonstra neste testemunho e um exemplo a seguir por todos nós. «Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram- me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porquê, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver?... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e a violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida.

E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do amor ou da morte. Percebe? Uma dessas abstrações que servem para tudo… O mundo é assim, que quer? É forçoso encontrar um estilo. Seria bom colocar grandes cartazes nas ruas, fazer avisos na televisão e nos cinemas. «Procure o seu estilo, se não quer dar em pantanas. ». «Os pássaros em volta» Herberto Helder.

Até breve

Mensagem do Presidente da APED - Duarte Correia

Neste início de junho, mês propício ao lazer, sinónimo de um início de férias, em que o período estival se anuncia, escrevo-vos esta página dedicada à revista Dor n.º 2 de 2013. Período que coincide com o XXII aniversário da APED (4 de junho), cujas atividades comemorativas, que organizamos, foram tornadas extensivas a todo o mês de junho, na tentativa de criarmos dois «momentos» anuais em que o tema DOR fosse visível e objeto de reflexão, não apenas para aqueles que se dedicam ao seu estudo e tratamento, mas também à sociedade civil e aos media, divulgando e promovendo na opinião pública a necessidade de um adequado controlo da dor.

Neste âmbito, no dia 4 de junho, dia do aniversário desta sociedade científica, iremos organizar em Lisboa, no centro comercial Vasco da Gama e na cidade do Porto no centro comercial Via Catarina uma ação de divulgação/sensibilização. Nesse mesmo dia, no centro comercial Vasco da Gama terá lugar uma performance teatral, o «Amor e a DOR».

Destaco o Workshop «Opióides em situações clínicas complexas», que iremos realizar na quinta feira, dia 20 de junho, em Lisboa, no Instituto Superior de Gestão (IGS) (http://www.isg.pt/). Este evento será em simultâneo uma jornada de solidariedade com a organização não governamental (ONG), Douleurs Sans Frontières (DSF) para a qual reverterá a eventual receita líquida proveniente do vosso apoio.

Na sexta feira 28 de junho, organizaremos em Lisboa, o Workshop «ecografia na dor crónica » destinado a um número limitado de participantes, promovendo os conhecimentos básicos na ecografia de intervenção no tratamento da dor. O Dr. Tomas Domingo, do Hospital Universitário de Bellvitge, será um dos formadores convidados.

Os grupos de trabalho «Psicologia» e «Avaliação da qualidade das unidades de dor» têm agendadas atividades durante este mês de junho, e no sábado 15 de junho, em Lisboa, promoveremos o Workshop «Registos eletrónicos nas unidade de dor», prosseguindo um trabalho há longo tempo iniciado.

Recordo-vos que realizaremos o 4.º congresso interdisciplinar de dor, na cidade do Porto, nos dias 17, 18 e 19 de outubro de 2013, no hotel HF Ipanema Porto, integrado nas comemorações da semana europeia de luta contra a dor, desejando que este seja um local de encontro, de todos os profissionais que se dedicam ao estudo e tratamento da dor em Portugal, conducente à atualização, reflexão, discussão, apresentação de ideias e propostas para um melhor controlo da dor.

Creio que o programa científico que elaborámos, abrangendo muitas das vossas propostas ou sugestões, será do maior interesse e motivo para a vossa participação. Os resumos dos e-posters terão que ser enviados até ao dia 30 de setembro, permitindo ao júri, presidido pela Dr.ª Ana Marcos, a seleção dos melhores trabalhos a apresentar.

No sábado dia 19 de outubro, no hotel HF Ipanema Porto, terá lugar a assembleia geral eleitoral da APED, que será expressamente convocada para este efeito.

Em outubro, três anos decorrerão desde a eleição desta direção que se propôs continuar e concluir objetivos já iniciados, perspetivar novos rumos, contribuir para uma metarmorfose da medicina da dor, permitindo um maior crescimento e consolidação desta área do conhecimento científico, que se pretende pluri e interdisciplinar, numa participação abrangente de todas as pessoas e organizações. Sem promessas inexequíveis, propusemo-nos transmitir e concretizar os vossos anseios, pugnando para um melhor tratamento da dor aos nossos doentes que são razão e ser da nossa atividade, acreditando ter contribuído, na medida do possível, para este desiderato.

Tive a oportunidade de integrar uma equipa coesa, participativa, com diversidade de pensamentos e opiniões, fruto de uma multidisciplinaridade de formação e de conceitos, apanágio de uma sociedade que pretendemos plural e abrangente, conciliando ideias e objetivos, estabelecendo metas, definindo rumos, num trabalho continuado, persistente, solidário e dedicado.

Três anos passados em que alguns de nós, por motivos de natureza pessoal, profissional ou estatuária, terminarão as funções que exercem, enquanto outros membros desta equipa que integro se submeterão ao sufrágio e ao veredicto dos sócios da APED. Pretendemos uma continuidade da evolução que não é, nem poderá ser, sinónimo de uma evolução na continuidade.

Por estes motivos, recusando um plebiscito ou a unaminidade de projetos, consideramos pertinente que outras ideias, conceitos ou pessoas surjam, dinamizando uma sociedade que não desejamos amorfa, anquilosada, espartilhada, ou letárgica. A publicação da portaria 95/2013 (consulta a tempo e horas) e da portaria n.º 163/2013 (tabelas da medicina da dor) constituem marcos muito importantes para a melhoria do tratamento da dor e da sua acessibilidade, que há muito almejávamos, expressando nesta «página do presidente » a minha congratulação, e desta sociedade, aos decisores do Ministério da Saúde, por estas medidas legislativas.

Foi um longo e moroso processo, finalmente concretizado com a publicação no Diário da República de 24 de abril, da portaria 163/2013, a tabela da medicina da dor. A APED publicamente reconhece, e pessoalmente agradeço, o esforço dedicado, abnegado e continuado dos peritos do grupo de trabalho constituído para este efeito no seio da Administração Central dos Sistemas de Saude (ACSS).

A medicina da dor, com a publicação destas portarias, adquire perante as adminstrações hospitalares um estatuto próprio, que há muito era devido, e finalmente consagrado, o que, na minha opinião, permitirá toda a diferença na capacitação, autonomia e sustentabilidade das unidades de dor em que a então comissão nacional para o controlo da dor (CNCDOR) e o grupo de trabalho constituído no seio da ACSS muito se empenharam.

Teremos um longo caminho a percorrer para melhorarmos o tratamento da dor em Portugal. Estas portarias são um passo fundamental, outros seguir-se-ão....